fiz um poema armado
não é para mexer
quebrar o vidro em caso de emergência
mas não distraias o motorista
poemas armados não fazem nada além de empunhar
assombros
barulhos aterrorizantes por entre a mata fechada,
o quarto fechado, o enterro da ave,
jacarés sem olhos,
não é para mexer

por outro lado,
ainda anteontem,
fiz um poema atlântico
se quiseres
não me deves nada.

– 10.10.2017

Resenha crítica do livro|Por Evanilton Gonçalves|OperaMundi e Painel Acadêmico

‘Eu preferia ter perdido um olho’, uma chave que abre a couraça de nosso tempo

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito; autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. 

Antes de abrir Eu preferia ter perdido um olho (Alameda, 2017), primeiro livro de Paloma Franca Amorim, multiartista paraense que reside em São Paulo, me encontro julgando o livro pela capa: uma cabeça de jacaré com a boca aberta e olhar intransigente encontra-se fixada ao Norte do livro, que, por sua vez, em seu formato, me lembra um rio. Mais embaixo, preenchendo a brancura do fundo: o título, o nome da autora e da editora, tudo ali, agrupado no que julgo ser o Sudeste da obra. Está formada a geografia.


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O livro reúne 52 textos que Paloma publicou ao longo dos anos no jornal paraense O Liberal. É até difícil acreditar que esses textos circulassem no jornal, porque sua densidade e uma maior liberdade de estilo me parecem incomuns nesse meio.

Logo percebi algo interessante: as narrativas quebram o protocolo de leitura esperado para um livro que é fruto da reunião de textos antes publicado em jornal. É intensa a abordagem analítica sobre variados temas: inocência, crueldade, descobertas, maturidade, incidentes da vida, deus, morte e amor. Embora capture muitos fatos do cotidiano e do noticiário, a autora os transforma com a sua “régua do fantástico”, de modo que pouco importa se o gênero é crônica ou conto, ela investe em narrativas recheadas de imagens poéticas. É possível ler trechos como esse: “E eu fiquei por aqui a desenhar navios de guerra em meu peito”.

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito. Trata-se de alguém que manipula a palavra com habilidade pelas correntezas de nosso tempo. A voz em primeira pessoa atravessa o corpo e entranhas da autora para se lançar ao mundo: “Vou falar de minha parte porque a minha parte, segundo eu, é a minha verdade e só dela eu sei e posso falar”. Na apresentação e no prefácio, a escritora é comparada à Clarice Lispector, mas vi em seus textos um diálogo muito mais forte com a obra da norte-americana Lydia Davis, justamente pela estranheza peculiar como aborda a vida.

Reprodução

Em alguns momentos do livro, surgem páginas com micropoemas, em fundo preto, com ilustrações de um dupla de peixes que ora se encontram, muito íntimos, ora parecem seguir em fluxos divergentes — completos desconhecidos. Aqui me parece residir uma observação entre parênteses: a fugacidade do afeto, a incerteza e insegurança do nosso tempo, ou o que Bauman chama de “modernidade líquida”.

Professora de teatro formada pela USP, integrante do grupo de samba Sambadas e do coletivo de arte e cultura feminista, com o incrível nome: Vulva da Vovó, Paloma usa a palavra de forma interseccional e o resultado, diferente do que se poderia imaginar — um atrito ligeiro e panfletário, pelo contrário, dá lugar a uma literatura potente e inventiva, visual e sonora, divertida e feroz como a vida.

A autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. No emblemático texto intitulado Artifícios de um Maurício civilizado, a narradora diz: “As mangueiras abraçaram o crime com folhagem cheia, a copa das árvores obstruiu a visão de deus, que não pôde julgar o acontecido”.

Gosto quando o livro me transporta para outras paragens ao passo que delineia as minúcias ordinárias do cotidiano provocando estranhamento. E o livro de Paloma tem essa formidável façanha. Ao tematizar as questões de gênero e de classe, por exemplo, a autora me fez pensar na aclamada série The Handmaid’s Tale, criada com base no romance homônimo (No Brasil publicado com o título O conto da aia), da Margaret Atwood, primeiro, porque na série, num dos primeiros episódios, um trecho bíblico surge para dar razão a brutal violência que uma personagem sofre ao ter um olho arrancado, lhe proporcionando redenção divina: “se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. Mateus 5:29”; segundo, porque, tanto no livro de Paloma quanto na série, existe uma tomada de consciência feminina que busca dar um curto-circuito no status quo. A série distópica encarna um regime totalitário e teocrático, no qual as mulheres são vistas como propriedade do Estado, o que nos remete à essa assustadora guinada do conservadorismo em nosso País, que já é racista e misógino por excelência.

“Eu ando justamente daquele modo que uma moça de bem não deveria andar. Não há culpa.”, diz uma voz no texto Leal. Portanto, impossível ignorar a questão de gênero: é um livro escrito por uma mulher – reconhecendo-se aqui as variações de caráter e de comportamento que o uso desse rótulo implica –, uma das quais se fez presente na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty 2017, através da Flip Zona, convidada para a mesa Páginas Anônimas – a literatura que o Brasil faz e você desconhece.

O que temos aqui é uma jovem escritora destemida, que, pelas frestas, explora, de maneira concisa e irônica, os absurdos do nosso tempo: “Que possas me livrar das aspas – pelo amor de deus: aspas apenas pelo respeito da citação e não para domesticar mitos ou maquiar a barbárie”.

Recheada por referências que passeiam pelo universo das artes, a narrativa valoriza a ambivalência humana, nela cabem a sonoridade de Elza Soares, Wilson das Neves, Duke Ellington, John Coltrane e também de Chet Baker; também cabem o poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos, a poeta Gertrude Stein, a ficcionista Carson McCullers, o dramaturgo Tennessee Williams, a filósofa Simone de Beauvoir, além de trechos fantásticos como esse, que afirmam sua interlocução literária: “É a estirpe dos Buendía, por completo, na contradição de tentar salvar a própria pele individualmente sem perceber que uma pele não se salva sem a outra.”

A voz filosófica e melancólica presente no livro embala a aflição que vejo como ponto de encontro da literatura contemporânea: “Porque antes de chegares com tuas certezas eu já me lançava por inteiro nesses mistérios medíocres que viram poemas grandiosos de gente branda. Gente escassa. Gente pouca. Gente grávida de vazio. Gente que cuida da vida dos outros como se a vida dos outros fosse um bolo assando no forno.”

Acredito que o texto O manto do rinoceronte sintetiza bem o espírito desse primeiro livro de Paloma. Nele, é possível ler: “Minha avó parecia um rinoceronte bem como tantas pessoas cheias de couraça por aí que permitiram o nascimento de um chifre de marfim entre as ventas, como se um chifre de marfim as pudesse proteger desses rodamoinhos em que tropeçamos depois que a vida nos traga pra dentro dos próprios pulmões.”

Acho importante pontuar a surpresa do jornalista e editor Haroldo Ceravolo Sereza na orelha do livro. Eu não sabia, mas ao final da leitura iria concordar com ele, afinal, me senti diante: “[…] de uma nascente que marcará […] a paisagem literária dos anos seguintes”.

A minha conclusão é de que “Eu preferia ter perdido um olho” é um livro corajoso que funciona como uma chave que abre a couraça de nosso tempo.

***

*Evanilton Gonçalves é soteropolitano. Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e Mestre em Língua e Cultua na mesma instituição. Autor de Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017).

Procissão

corda

Os meninos acordam às quatro para formar o batalhão do carro dos desejos. Levantam-se preguiçosos mas excitados, fazem o asseio, vestem a farda escolar e se alimentam de pão com manteiga e café com leite preparados por uma sonolenta mãe que sente entre bocejos um orgulho por mandar as crias para o meio da multidão. Do lado de fora da porta há um cartaz com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Na entrada do vizinho também há, do lado esquerdo, do lado direito, até a numeração mais escassa do final da vila.

Mais para a metade da manhã já se pode sentir aquele alastrar-se do cheiro de comida – maniçoba, vatapá, pato no tucupi, arroz de jambu, doce de cupuaçu. Inúmeros e inomináveis aromas se vão multiplicando pelo ar, embriagando a gana de toda gente que, embora faminta, só vai se sentar para o banquete depois que a santa chegar ao seu destino final, atravessando pela barriga da serpente de asfalto o caminho que separa uma igreja da outra, a Sé da Basílica, lentamente e com paciência em sua berlinda de ouro, toda enfeitada de flores, velada por seus filhos, seus seguidores, seus promesseiros.

Orações guiam a marcação do compasso, homens antigos com mantos e terços pendurados são os escolhidos para conduzir o cronograma da passeata. Outros, sem sapatos, carregam com os braços erguidos, acima de suas cabeças, tijolos, barquinhos de miriti, miniaturas de uma morada, num jogo metonímico e orgânico secular em que os objetos aparentemente sem nenhuma relação se transformam em representações de pedidos, necessidades a serem atendidas por meio de uma benção, uma graça.

Enquanto isso os poderosos observam tudo de cima, na varanda de Fofó de Belém  onde se diluem em gloriosa massa de convidados, figuras distintas oriundas dos celeiros sudestinos. Todos brindam com taças demi preenchidas com espumante – de cuja qualidade se duvida – o testemunho da fé alheia, o circo grotesco e digno de prêmios internacionais de fotografia do povo exausto castigado em sede que mesmo exausto e castigado em sede continua caminhando, caminhando, caminhando – como se caminhar fosse nesse naco de mundo o único jeito de estar vivo.

As cores pulsam nas fitinhas vendidas em paus de miriti, os moleques apanham carteiras, todos se eriçam quando o movimento dos milhares de corpos começa a anunciar  a aproximação da corda, o dragão de duas cabeças que ziguezagueante faz varredura no espaço tragando tudo e todos para dentro de si. Porque violento, indestrutível e miseravelmente contornado por belezas, é o único fio umbilical possível entre a Mãe da Amazônia e sua prole.

O almoço é farto. Como estivessem em um rito medieval as pessoas só se levantam da mesa quando já não podem mais respirar porque o estômago alargado subtraiu o território dos pulmões. Um tio barrigudo abre uma draft. A sobrinha fica com vergonha de pedir um copo, sai discretamente, na lateral da casa, fuma um cigarro escondido, depois chupa uma bala para não suspeitarem do hálito, faz o sinal da cruz suplicando perdão pelos pensamentos impuros, pela inveja, pela masturbação.

O dia morre na baía, corta o tempo ao meio. No horizonte as nuvens se agregam também fazendo medida de procissão. São milhares de romeiros preenchidos por vapor d’água. Mantêm-se nuvens sem desabar, sobrevivem porque em dia santo calendário não faz chuva.

***

 

PFA

meu canto 
de escrever ladainhas
ou
uma caverna
vai se moldando sob os olhos 
de minha avó
donatília franca
que vivia numa roça
hoje vive num retrato
só me olha
e me diz
menina,
só te olho
– Outubro de 2017

 

O Besouro ou Confissão a Felipe Cruz

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Felipe, a Moça e Dimítria

Quando puxou a pelinha no canto da unha, fazendo sangrar a borda do dedo, imaginou que até mesmo essa mínima dor ele poderia sentir ao seu lado, como se ambos fossem partes vitais de um mesmo corpo, outrora uno, recentemente dividido por força sacro romana ou intempérie qualquer para alimentar as jogatinas do destino disfarçadas sob as alcunhas do acaso.

Fazia tempo que ela não se percebia desse modo: a sentir os próprios pulmões inflados no peito de outro.

Dali em diante passou a agradecer todos os santos e pedaços de vento que fossem por ventura responsáveis em manter o corpo do amigo forte o suficiente para que sobrevivesse até setembro, cumprindo a tarefa de esperá-la, porque ela chegava, e nenhum dos dois poderia ter suspeitado, nenhum deles sabia que o tempo cuidara daquele encontro com as próprias garras.

Depois ficaram sabendo e tomaram nota e assinaram contrato e tiveram a certeza de que já se amavam há muito, como se o amor pudesse, antes de ser carne, ser intuição que voa por aí, anunciando em segredo aos ouvidos: Ele virá. Ela virá. E terás apenas que fazer o que deve ser feito.

E o que tinha de ser feito naquela tarde era estar à mesa da livraria e iniciar uma conversa que só ganharia desfecho no dia seguinte. Os dois avidamente garantiram que aquele momento fosse uma maneira de recuperar todos os anos perdidos, décadas passadas, em que existiram sem desconfiar minimamente que, talhados na mesma pedra, eram um do outro -não por incompletude ou solidão, mas pela inteireza das partes que se aninhavam em si como aves irmãs. Ele estava certo, os dois pareciam filhos brotados d’uma mesma raiz. Já não importavam as expectativas, as mágoas e os traumas, a vida enfim começava do princípio e tinha rugas e era de insondável beleza sem que por isso deixasse de ser, também, tão má.

Ela puxou a pelinha no canto da unha que houvera sido machucada por uma coceira intensa fruto d’alguma mordida de inseto do tipo voante que provavelmente adorava hemácias, leucócitos, tanino e maniva. Poderia ser um besouro desses de casca de quitina, dura, dourada e farfalhante, cheia de filamentos obtusos onde se escondem glândulas odoríferas e células receptoras de nicotina.

O amor é a parte brilhante, a parte que reflete placidamente o ouro solar, da casca desse besouro.

O besouro que outrora sofrera tentativa de assassinato por esmagamento.

Duas mãos espalmadas e dolosas quaisquer tentaram tirar-lhe a vida, mas foi tudo em vão porque essas mãos tinham nas palmas cada uma um buraco santificado por onde o besouro tratou de se embrenhar desviando heroicamente do triste fim. Quando o assassino deu por si, ele já sobrevoava a base aérea da capital, cruzando os blocos de calor e umidade dos céus para alcançar, enfim, o dedo da moça que não era donzela nem nada, arrancando-lhe um naco da carne do fura-bolos, abrindo uma fresta na rotina através da qual um jorro de sangue  a fez notar que já era outubro. 

Levou o dedo à boca e lambeu a ferida, em seguida voltou a digitar o conto, o movimento da urgência fez com que o sangue escorresse novamente, dessa vez por cima do teclado, as letras se tingiram de vermelho vivo.

Ele pode sentir essa dor – pensou a moça pela última vez enquanto eu me levantava ríspida em direção à cozinha para apanhar o álcool e um paninho de limpeza.

***

O Liberal Jornal – 3.10.2017

Uma Luminária Pensa no Céu

No livro “Calibã e a Bruxa”, recentemente traduzido para o português pelo Coletivo Sycorax, a escritora ítalo-americana Silvia Federici faz um estudo pormenorizado sobre a relação entre o genocídio de mulheres na baixa Idade Média e o surgimento do capitalismo. A eliminação de milhares de bruxas no começo da Era Moderna, para a autora, é uma pista que revela a íntima conexão entre a ascensão do sistema capitalista e a institucionalização do patriarcado e, por consequência, da prática feminicida que atravessa gerações e recai até hoje sobre os corpos atrelados à sociabilização feminina. 

Ao ler a plaquete “Uma Luminária Pensa no Céu” de Mayara La-Rocque, a ser lançada hoje às 18h30 da tarde, na Casa da Linguagem (Avenida Nazaré, 31), imediatamente me lembrei da pesquisa de Federici, talvez por uma dessas livres associações que faz a intuição quando nos deparamos com um material de potência expansiva que nos leva para além dele mesmo, fazendo-nos recorrer a outros suportes para, como leitores, preenchermos suas lacunas poéticas e especulativas. Mayara, poeta e contista/cronista, mistura os gêneros e, ao recusar a categorização tradicional do discurso literário, chega a pontos essenciais que revelam aquele parentesco de sangue – hoje escondido e esquecido – que constitui a irmandade entre a prosa e a poesia.

Os contos da plaquete, curtos e assertivos quase como orações (pagãs, evidentemente), trazem uma visão bruxulesca da realidade a partir da qual o natural é criatura vivente e autônoma tanto quanto a própria autora. Da natureza Mayara extrai seus preparados diários para confrontar-se com as operações instáveis da memória – essa que tanto me encanta e que é, mais uma vez e comprovadamente, passível de compartilhamento.

Embrenhando-se pela experimentação literária como um fazer alquímico, Mayara realiza investigações laboratoriais com as paisagens diante de si: rios, folhas, corredores de casas antigas. Ela preenche garrafas e mais garrafas vazias com esses grãos de areia, grãos de passado e de sensações, compondo um mosaico, quadro espraiado em fragmentos vibrantes, ora solares, ora soturnos.

Os poemas de “Uma Luminária Pensa no Céu” desenham caminhos que serpenteiam por entre os vãos da imagem, da natureza e da lembrança. Em “Paternidade”, que tanto me atravessou, Mayara nos conta:

“Dos infindos mistérios/ Que me rondam/ E nem sequer/ Alcanço/ Vago sob a transcendência/ De meu pai/O fumo que entremeia/Os cômodos da casa/A música estridente/Que invade/Toda a casa/Os acordes múltiplos/De silêncio/E um abismo/Entre nós.” 

(Bonito, não? Gosto quando o azul de fim de tarde vem assim com justeza.)

Imagino que a ligação entre os escritos de Mayara La-Rocque e os de Silvia Federici se dêem nessa fina camada que separa na linguagem literária o lírico do político. O texto de Mayara se anuncia como uma motivação simbólica de resistência feminina, amazônida, e por isso mesmo humana (é importante fazer essa afirmação posto que ainda somos desumanizados, mulheres e nortistas, para nós mesmos e para “os outros”). Além do mais, é pura água para uma sede de além-materialidade, essa sede que nos faz buscar no epicentro do poema ferramentas que nos façam alargar a compreensão sobre os horizontes que a vida, dialeticamente, oferece e arranca de nós a seu bel prazer.

***

O Liberal Jornal – 27.09.2017

Tarde de Travessia

Todas as vezes que atravesso o rio Guamá para ir à ilha do Combu não sinto nem alegria, nem tristeza, e sim equilíbrio, um respiro profundo do espírito, uma calmaria. Acho que foi bom deixar Belém com essa imagem na cabeça, a da travessia. A do rio que me enreda, que enreda a todos nós, sujeitos amazônicos, sejamos da capital ou dos interiores – não adianta fugir, é como se o rio fosse a própria vida que carregamos por dentro, com seus sumidouros e afluentes, suas gargantas caudalosas, a atividade misteriosa que não se pode ver devido às águas escuras, barrentas, impactantes aos olhos de qualquer mergulhador desavisado.

Dimítria me disse que não se entra no rio às seis da tarde, e faltavam apenas dez minutos para as seis. É a hora das encantarias – melhor não arriscar! – entramos rapidinho, em seguida tiramos uma foto para registrar o encontro. Não queríamos desrespeitar os encantados e nem perder a oportunidade de olhar de longe a dança das águas e o final de tarde se enterrando no horizonte, vermelhedante, como um coração que se vai enterrando em si na cadência das horas.

Quantas vezes fui feliz nessas tardes quentes? Eu me havia esquecido, mas fui feliz sim. De verdade. E fui feliz essa semana que começou um pouco angustiada e terminou plena, no Cozinha de Bistrô, com o lançamento do meu livro “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho”. Foi uma noite linda, cheia de encontros intensos, partilhas reais.

Conversei com a Rita, dona do Bistrô junto com a Clarisse, e agradeci a dedicação empenhada no evento. Rita me falou ter feito de tudo para que as coisas corressem bem, porque o lançamento era muito importante. Fiquei emocionada pelo carinho. Clarisse depois me confessou ter sentido uma forte energia até mesmo das pessoas ausentes – minha mãe e a Maria Lúcia Medeiros a quem dedico o livro. Foi um momento de reverência e evocação.

Fiquei surpresa, entretanto, com a reação moralista e até mesmo aterrorizada de algumas pessoas diante do título do meu livro e o tema da violência sexual que ele aborda (dentre tantas outras temáticas, afinal eu sou escritora e não especialista em teoria de gênero). Imagino que esperavam que eu escrevesse um livro sobre a lindeza da baía do Guajará, gostariam talvez que eu escrevesse um livro sobre belezas cafonas, sobre o Mangal das Garças.

Escrever sobre a cultura do estupro, sobre as violências que eu mesma vivi, é uma maneira de me salvar e buscar a interlocução de outras mulheres, manas, pessoas, que passaram por experiências semelhantes. Eu não faço mal a ninguém ao tocar nesse assunto, e não exijo admiração, apenas exijo que respeitem o meu direito político (e o de todas as mulheres) ao corpo, à subjetividade e à investigação da linguagem literária sem descompassos de gênero.

Escrever sobre as violências que eu vivi é para mim o mesmo que dobrar os joelhos e olhar nos olhos daquela garotinha de seis anos que fui e dizer: eu lamento muito por tudo, você não é louca.

Assim, recusando-me a fechar as vistas para a sua dor, ao contrário do que todos fizeram, nos reconciliamos – eu e ela – e passamos a perceber a vida como um rio, essa tarde de travessias. Eu carrego minha menina no colo e às vezes é ela quem me embala, juntas somos mais fortes e por isso nos tornamos capazes finalmente de partir de Belém pra sempre e em paz.

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O Liberal Jornal  – 20.09.2017