O Coronelismo chega à Universidade

JOSÉPORFIRIO

No dia de ontem, quarta-feira, 29 de novembro de 2017, o prefeito da cidade de Senador José Porfírio, Dirceu Biancardi (PSDB), acompanhado por uma comitiva de aproximadamente 40 pessoas, dentre as quais estavam guarda-costas garantindo a “segurança” da ação, inviabilizou de modo autoritário o debate e estudo “As Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” que ocorria no auditório do Instituto de Ciência Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal do Pará.

Segundo o boletim de ocorrência, aberto pela professora titular do Instituto Rosa Elizabeth Acevedo, “(…) o prefeito de Senador José Porfírio – Dirceu Biancardi – se apossou do espaço, promovendo turba, ameaçando aos pesquisadores que apresentavam o seminário e por fim mantiveram alunos e mestres em cárcere no local, até mesmo impossibilitando o uso do banheiro.”.

Nas fotografias divulgadas ainda ontem pelas redes sociais Dirceu Biancardi ocupa a bancada em uma postura ostensiva, com o dedo em riste e expressão furiosa, o chapéu de ponta estilo velho (agro) oeste se revela como o grande símbolo da mentalidade coronelista que vigora no interior do estado do Pará e também na capital, Belém, de uma maneira velada, por sob o acobertamento das alianças de nossa tardia aristocracia urbana.

O seminário “As Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” foi organizado pela partilha de análises sobre os impactos da mineradora Belo Sun sobre a região afetada pela hidrelétrica de Belo Monte. Realizadas através de um ciclo de encontros ao longo de dois dias, as discussões críticas ao projeto de implantação de Belo Sun, maior mina de ouro a céu aberto do país, na área da Volta Grande do rio Xingu, foram pautadas sob pontos de vista jurídicos, políticos e ambientais. Estiveram envolvidos no encontro representantes do poder público, de movimentos sociais e da comunidade acadêmica da UFPa e de outras universidades públicas.

A programação foi preenchida por temáticas de interesse social amplo e irrestrito, como a expressão de uma das responsabilidades das instituições públicas brasileiras junto à comunidade. Ao interromper o debate o prefeito Dirceu Biancardi feriu um dos fundamentais princípios do Estado democrático: o direito à crítica sobre os sistemas políticos e sociais estabelecidos. O prefeito confunde intenções privadas com o necessário foco público da extensão universitária e, afirmando defender os interesses da população de Senador José Porfírio, na realidade salvaguarda privilégios históricos direcionados às elites regionais e ao empresariado.    

Em nota, a assessoria da prefeitura de Senador José Porfírio respondeu às denúncias divulgadas nas redes sociais logo após o ocorrido, negando que o gestor municipal Dirceu Biancardi tenha promovido o cárcere dos participantes do evento. Afirma-se no documento que o prefeito se dirigiu ao local para “defender a posição e olhar do município em relação ao tema tratado que naquele momento desrespeitava [dizia respeito] ao município, no entanto este se quer [sequer] havia sido convidado a dar seu posicionamento.”.

Ainda na nota: “A gestão repudia quaisquer manobra nas informações que crie atmosfera de arruaça em instituição federal, como está sendo erroneamente colocado por terceiros.”.

Para Dirceu Biancardi um evento de discussão sobre impactos sociais sugere a criação de uma “atmosfera de arruaça”, o prefeito inverte novamente o sentido e a importância do debate público sobre questões concernentes à vida das populações do interior do estado.

A Universidade Federal do Pará precisa oficialmente se manifestar sobre o ocorrido para finalmente pautar seu posicionamento nesse momento histórico determinante no qual inclusive grande parte da população das cidades impactadas por projetos de hidrelétricas e mineradoras, diante da impassibilidade do poder público, têm aderido ao discurso do empresariado visando a mínima garantia de sua sobrevivência. A situação é crítica e o corpo docente, discente e reitoria universitários devem anunciar de que lado estão neste conflito que se acirra para além dos muros acadêmicos. Essa definição ideológica inclusive pode inaugurar um outro momento político na instituição, em face de todos os aspectos históricos também oligárquicos que sustentam a sua fundação.

***

Paloma Franca Amorim

 

ATUALIZAÇÃO 14:25:

 

NOTA DA REITORIA DA UFPA SOBRE O OCORRIDO:

A Reitoria da Universidade Federal do Pará vem a público repudiar veementemente a agressão à autonomia universitária de que a instituição foi alvo nesta quarta-feira, 29/11, por ocasião de um debate sobre projetos de mineração no estado do Pará. Na ocasião, o Prefeito do município de Senador José Porfírio, Sr. Dirceu Biancardi, acompanhado do Vice-Prefeito e de três vereadores daquele município, impediu a realização da atividade acadêmica programada e impossibilitou que os responsáveis pelo debate ou quaisquer pessoas afetas à UFPA saíssem do auditório para entrar em contato com o serviço de segurança institucional ou com a Administração Superior da UFPA. Os apoiadores do prefeito também agrediram verbalmente os presentes à atividade, coordenada pela Profa. Dra. Rosa Acevedo Marin. Exercer a liberdade de expressão e enfrentar os grandes debates nacionais com os instrumentos da ciência e do pensamento crítico são aspectos essenciais do trabalho das Universidades, no ensino, na pesquisa e na extensão, daí o princípio constitucional que estabelece a sua autonomia. Obstar, nesse ambiente, a manifestação de ideias e posições sobre fatos de qualquer natureza é impeditivo da própria existência da instituição universitária e merece ser intensamente repelido por toda a sociedade. A agressão à UFPA foi também uma agressão ao Estado Democrático de Direito e mais uma expressão do obscurantismo que anda a ameaçar as mais importantes instituições do país. A UFPA ressalta que está solicitando a apuração detalhada dos fatos citados, assim como a devida responsabilização dos autores da agressão. Por fim, reitera que não será tolerante com qualquer tentativa de intimidação de membros da comunidade universitária e tomará as providências necessárias para resguardar o seu direito à livre manifestação e à difusão do conhecimento aqui produzido.

A Reitoria da Universidade Federal do Pará vem a público repudiar veementemente a agressão à autonomia universitária de que a instituição foi alvo nesta quarta-feira, 29/11, por ocasião de um debate sobre projetos de mineração no estado do Pará. Na ocasião, o Prefeito do município de Senador José Porfírio, Sr. Dirceu Biancardi, acompanhado do Vice-Prefeito e de três vereadores daquele município, impediu a realização da atividade acadêmica programada e impossibilitou que os responsáveis pelo debate ou quaisquer pessoas afetas à UFPA saíssem do auditório para entrar em contato com o serviço de segurança institucional ou com a Administração Superior da UFPA. Os apoiadores do prefeito também agrediram verbalmente os presentes à atividade, coordenada pela Profa. Dra. Rosa Acevedo Marin. Exercer a liberdade de expressão e enfrentar os grandes debates nacionais com os instrumentos da ciência e do pensamento crítico são aspectos essenciais do trabalho das Universidades, no ensino, na pesquisa e na extensão, daí o princípio constitucional que estabelece a sua autonomia. Obstar, nesse ambiente, a manifestação de ideias e posições sobre fatos de qualquer natureza é impeditivo da própria existência da instituição universitária e merece ser intensamente repelido por toda a sociedade. A agressão à UFPA foi também uma agressão ao Estado Democrático de Direito e mais uma expressão do obscurantismo que anda a ameaçar as mais importantes instituições do país. A UFPA ressalta que está solicitando a apuração detalhada dos fatos citados, assim como a devida responsabilização dos autores da agressão. Por fim, reitera que não será tolerante com qualquer tentativa de intimidação de membros da comunidade universitária e tomará as providências necessárias para resguardar o seu direito à livre manifestação e à difusão do conhecimento aqui produzido.

 

Belém, 30 de novembro de 2017.
Emmanuel Zagury Tourinho
Reitor da UFPA

Vento Virado

Será que Leila tem sonhado?

Tenho sonhado Leilas e outras miríades, jogos de futebol, um menino de bigodes me empurrando na escola depois de declarado o meu amor pela professora. Vento virado. Eu adoro sonhar um vento virado. Nem sei direito explicar como faço. Sinto o vento virado chegando pela nuca e salto em cima dele abocanhando-o num vigor de fera desnuda,

língua a língua,

braçadas tentaculares, pernas mornas

contraio todos os nervos que preparam o disparo contra o batalhão inimigo,

esse tédio, esse terror dos dias,

e me afundo em explosões, fogos de artifício, luzes,

tudo plugado

tudo como se eu fosse o pranteio

da fogueira

a consumir-se em braseiro aqui dentro

eu adoro sonhar um vento virado

como o vento virado todinho e ainda repito o prato.

Gostaria que Leila sonhasse nesse tempo em que está adormecida no hospital, buscando a cura, lambendo as próprias feridas, recuperando o corpo. Gostaria que visitasse aquele sonho em que eu estava num bosque à beira da praia em Montevidéu, na Rambla. Até onde minha vista alcança tudo parece ser alegria. O cheiro do mar é avinagrado e me anima. As pedras ali no meio do oceano se confundem com as embarcações ancoradas, minha solidão é uma delas. Ouço as folhas das árvores dançando num farfalhar contínuo – nunca tinha vivido nada assim, nunca tinha visto esse sol, esse amarelo todo, esse verde que é vermelho em mim. O clima está daquele modo iluminado e frio, invernal, agradável, eu gosto das praias geladas mais do que das praias cálidas. Estou aquecida porque uso um casaco grosso que era do meu pai.

Eu me aproximo de um graveto enterrado na grama e tomando-o feito um lápis, dirijo-me às dunas para deixar um recado a Leila que deve ser lido de cima, do céu, de dentro de um monomotor desses que cria imagens no azul com fumaça e manobras engenhosíssimas. 

Quando Leila passar por esse sonho a bordo do tal aviãozinho, usando por segurança um capacete cheio de listras, paraquedas e aqueles óculos enormes que protegem o rosto inteiro, poderá olhar para baixo e ver ali desenhadas na areia letras garrafais feitas em uma escritura que me terá tomado horas e horas a fio, prazerosas horas em que me dedico a produzir um recado para o futuro, passível de apagamento pelo ir e vir das ondas  (mas eu não me importo, eu confio. Eu confio.), e ela lerá, lerá com os olhos e com o coração:

“seja bem vinda de volta, Leila”

quando isso acontecer eu já terei despertado, estarei trabalhando, no horário de aula falarei para os meus alunos o quanto sou louca por eles e o quanto o que eu ensino seguramente não serve pra nada, chegarei em casa, almoçarei e depois sentarei em minha mesa para escrever o texto a ser publicado na próxima quarta-feira no jornal.    

Quando Leila acordar vai nos trazer um regalo,

nem que seja pequenininho, de ouro falso, inflamável

Ela o terá acomodado por entre as duas mãos em concha, e nos olhará com uma expressão faceira convidando-nos a travar aproximação com o artefato qual se tratasse de um pássaro raro de asas muito coloridas, um topitô talvez, desses que botam ovos de argila.

Todos nós chegaremos mais perto e alguém ousará perguntar:

– o que é isso, Leila?

E Leila, de novo enredada por aquele seu charme de madrugada naturalmente misterioso, anunciará:

– isso, meus amigos, é o corte da vida na barriga da morte.

***

O Liberal Jornal, 29.11.2017

20 de Novembro

Àquela índia pega no laço por um senhor de terras em 1890 e que foi compulsoriamente violentada e abandonada e mãe de frutos proibidos a piada da família porque ficamos todos moreninhos
à bisavó que deu a avó que deu a mãe
à mãe que alisava os cabelos e que andava com alfinetes nos bolsos para furar engraçadinho que tentasse passar uma mão boba no metrô e que foi perseguida às onze da noite por um escroto filhodaputa do ponto até a esquina da casa onde morava e que foi empregada doméstica e que foi operária e que foi psicanalista e que morreu de infecção hospitalar numa cama suja cheia de formigas da UTI do hospital geral de um plano de saúde que a classe média baixa paraense achava que era bom e isso fazia com que aparentemente fôssemos todos iguais às pessoas com mais dinheiro.
à tia que morreu numa cama de hospital público no Campo Limpo naquela UTI onde os visitantes diziam que quem entrava não saía mais e onde todos os médicos eram mediocremente brancos e os pacientes todos inegavelmente negros
à irmã que cria uma cria sozinha
à avó da minha sobrinha que tem dores nos joelhos e pinta de vermelho os cabelos crespos
às primas
àquelas solteiras, ou àquelas
que amam mulheres e
por isso são consideradas solteiras
e às que educam solitárias seus filhos
no Capão Redondo
e se aliviam pelos que são mais clarinhos
e temem pelos mais escurinhos
porque a polícia é racista.
a rua é racista.
a liberdade é racista.
a fé é racista.
a pobreza é racista.
a fome é racista.
uma criança desmaiou de fome na escola essa semana
não há amor se há fome
 
A essas minhas pessoas
minha gente, minha banda escura da lua,
eu me ofereço poeta à veia cava,
no sangue mais grosso
que carrego no peito
pulsante, violento,
água de rio
desesperada pela vida
como o menino que
carrego na barriga
e que não
virá.
 
***
 
PFA

Gestação

A mãe jamais acreditaria na história verdadeira. Quem acreditaria? Para a família inteira  não passava de uma mentirosa, cabeça de fragilidades, pensadora de tragédias intermitentes. Era mais fácil falar que um sujeito na rua a obrigara a fazer coisas

e ela teve de fazer.

Ainda assim logo diriam: mas você estava vestida como? É isso que acontece quando vocês ficam aí de agarro na rua autorizando os homens a fazerem coisas.

Coisas. Essas coisas de pegar pelo braço, levar para uma fresta sem saída, terreno baldio, fica quietinha.

Não acontecera nada disso. Fora o primo mesmo. Aquele que dormia no quarto ao lado. Fez o que quis e ainda falou que se ela contasse para qualquer um ele negaria.  Aliás, ninguém lhe daria confiança , afinal, ele era mesmo um bom rapaz, cristão, das honestidades, trabalhador e, é preciso dizer, tinha uma namorada com quem se casaria de igreja e de cartório assim que terminasse os estudos.

Ela, por outro lado, subia no telhado da escola, matava aula, sexualidade indefinida, falava palavrão, era apelidada de maria machinho por jogar futebol no meio dos moleques, fumava escondido, aos 30 anos teria uma coleção de tatuagens sobre o corpo, insônia, depressão, ímpetos de alegria com fagulhas quase invisíveis de assombro cotidiano, escreveria cartas de amor para criaturas inexistentes, tomaria um chopp em Santa Cecília no final da tarde, sozinha, observando os passantes em meticulosa pesquisa para um próximo conto. Embarcaria em ônibus de demorada travessia com alguma excitação apenas por ganhar tempo para botar nos fones de ouvido o disco inteiro do Tom Waits enquanto desinteressadamente  fitaria as gotas de chuva colididas no vidro da janela, escorrendo uma a uma como corpinhos de água que não conseguiram se salvar e que ainda tentam, sob frustradas intenções, agarrar-se a alguma chance de sobrevivência, mas o vidro é escorregadio e elas apenas deslizam e caem. Waits sussurra.

 Baby, all that

I can think of

is Alice

Apesar de tudo, aquele lhe parecia um futuro glorioso.

O olhar fixo e tão compenetrado quase podia, uma pedra, furar o teto do quarto. Naquela massa atmosférica de dois metros por dois metros cabia uma cama, um armário, um ventiladorzinho preguicento e toneladas ébrias de pensamentos que se abriam como rotas alternativas umas às outras, contudo incapazes de levar a lugar algum. Assim, cada vez que ela fechava os olhos e tentava se concentrar nos possíveis caminhos de fuga para resolver o problema do bebê crescendo dia após dia dentro da barriga percebia-se encurralada por muros que emergiam do chão em razão de segundos. Milhares de muros cinzentos e o bebê crescendo dentro da barriga. Preferia que fosse dentro de uma caixa, então ela poderia de vez em quando ir olhar para matar a curiosidade científica que lhe era como uma marca de nascença e perceber como andavam as coisas, o florescimento da vida, o acasalamento das células embrionárias,  a formação das estruturas primordiais do ciclos de desenvolvimento fetal, o desdobrar da notocorda, a pulsação da ponte umbilical, os batimentos cardíacos ressoando aquosos em cadência ágil, e na hora marcada depois do parto levaria a caixa com o bebê embalada para presente, deixando-a ao pé daquela enorme árvore de natal que fica bem ali no meio do Boulevard Shopping Belém.

***

O Liberal Jornal – 15.11.2017

 

Selfie

Queria fazer uma selfie no banheiro da minha casa para parecer que estou em um cenário de balada com uma maquiagem bonita, cabelo bem cortado, um olhar desses sedutores (que quem me olhasse ia falar para a pessoa ao lado nossa blablabla ela além de inteligente é sedutora mesmo, você tem toda razão), um cigarro por entre os lábios bem não rachados, uma draft na mão, bom hálito, CLT, autoestima elevada, sem dívidas, leituras em dia, de ladinho, com uma legenda assim: “de volta na pista”, mas não sei em que botão aperta.

 
 
 

O Lutador

Ao ler as manchetes do jornal me deparei com mais uma dessas histórias que nos roubam longos períodos de reflexão, memória, elaboração – porque não há exercício mais prazeroso do instinto do que o de pensar sobre eventos imercantilizáveis e corriqueiros.

Deparei-me com a notícia da morte do boxeador Gil Carvalho, afogado nas águas do rio Guajará. Uma história espinhosa e cruel envolvendo glória, disputa, álcool, um treinador melancólico e angustiado. No topo da matéria havia uma fotografia talvez dos anos 80 que estampava toda a trama: Gil, ao lado de quatro homens, fita a lente erguendo a auspiciosa luva vermelha num aceno implacavelmente tímido para o invisível público. Lembrei-me de uma fala atribuída ao Julio Cortázar, bem curtinha, sobre a diferença entre o conto e o romance: “o romance se vence por pontos, o conto por nocaute”. É uma definição massa.

Voltei ao tempo em que havia um saco de pancadas pendurado na casa da minha avó, o pai treinava lá e eu às vezes brincava de ser lutadora. Outro dia assisti a um documentário sobre o Muhammad Ali, fiquei pensando que eu quero ser ele.

Novamente a foto. Surpresa. Eu conhecia o homem à esquerda do Gil Carvalho, era o seu Cordeiro, inspetor da escola onde estudei na adolescência dos anos 2000. Não havia dúvida alguma, reconheci pelo olhar denso sempre tão bonitamente sereno em contraponto à expressão grave e carrancuda em face de nossos desarranjos estudantis.

Uma vez o encontrei fazendo a segurança de uma top festa cafonalha de quinze anos. Nós nos vimos na porta da casa de eventos e rapidamente nos falamos. Eu perguntei como iam as coisas, se estava trabalhando, ele sorriu e disse que sim. Eu disse bom trabalho e fui entrando. Depois fui saindo e lá estava ainda, firme e forte. Tchau seu Cordeiro. Tchau. Na segunda-feira novamente ele na escola tentando nos devolver à sala de aula – e nós escalando pelas paredes feito umas lagartixas deslizantes e fugidias.

Matei um horário inteiro tentando escrever um versinho, o professor de física pegou e leu, eu dizia que nem todo cordeiro divino era branco de pelúcia, que havia os cordeiros negros de carne e osso e que seu Cordeiro era o cordeiro negro de um Deus também negro, sagrado e justo. O professor riu e disse que eu era maluca. Era nada. O seu Cordeiro nos cuidava e cuidava de nossos pecados com integridade, eu sabia. Na escola, na rua, nas festinhas idiotas, era como se estivesse em todos os lugares olhando por nós, mas não como aqueles anjos aparvalhados que me desorientavam em pesadelos, mas como um homem bom que labutava dignamente obrigado a cuidar do bem estar dos outros.

O seu Cordeiro, mais escuro que todos nós caboclos, filhos e netos da cruza de invasores com indígenas, carregava nos ombros a diáspora dos seus e o peso da africanidade que lhe fora historicamente usurpada ecoando ainda tão silenciosa na Amazônia.

Ao lançar meus olhos novamente sobre a fotografia no jornal vejo o boxe, as correntezas tenazes do rio que engole os corpos, vejo seu Cordeiro jovem e me pergunto onde estará. E me pergunto quais foram as narrativas que eu não ouvi (como eu as ouviria?), lançando-me a essa pequena inquietude, que é de todo escritor, de passar salpicando invenções nas aparentes lacunas da vida alheia. Obrigada, seu Cordeiro, e um abraço.

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Luedji

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O Liberal Jornal – 1.11.2017

Dançavas
Era quando o silêncio e o gesto se perpetuavam como uma rebelião pelo espaço. Ficávamos ali, público estupefato, impressionados com o desenho ágil dos teus contornos e a vontade escancarada que anunciavas na expressão do teu olhar. A vontade da arte, da síntese, da imagem.

A vontade de vencer o sono e a lucidez todos os dias.

Tem uma nesga de luz no entreaberto das tuas asas geminadas às minhas. Vês?

Eu não entendo, não quero. 
Quantas palavras ainda estão por vir?

E esse gole de cerveja quente rasgando e 
curando as carnes 
de mim.

E essa saudade. 
Esse coração de duas cidades.

Nunca perdoarei essa falta.

Nunca perdoarei Belém 
– não aquela onde Jesus nasceu –
A Outra.

***
– 2009

 

Alegria

Veio uma meninazinha, meio indiazinha, quase natimorta e decidiram chamá-la Alegria nutridas por alguma esperança de que o nome lhe pudesse conceder forças para vingar-se viva. Houve que as contrações chegaram antes do tempo e no correcorre do hospital acabou que os médicos decidiram em junta militar despregá-la de dentro do útero através de um único puxão, extraindo de uma vez só sua cabeça e corpinho, tudo bem miúdo como se a Alegria  fosse um mal verdolengo que não passara da semente.

Para vê-la as mães precisavam ficar  a alguns palmos de distância da incubadora. Elas se davam as mãos e tentavam observar com coragem a primeira filha desbravando tentativas de  sobrevivência com aquele movimento de peito arfante, um coraçãozinho de colibri a cento e vinte mil batidas por segundo, os olhos cerrados ainda cegos de mundo, as mãos apertadas em caracóis de dedos e a pele oscilando entre os claros e escuros da irrigação sanguínea.

Proteínas, banhos de uma luz intensa e amarelada, o barulho frequente das máquinas de medir a vida, agudas, pontilhando os silêncios com sua cadência imprevisível e angustiante. Lá fora, os passeios no pátio eram perfurados pelo bafo quente dos dias de abril, e ainda assim parecia mais confortável estar para além das portas da enorme casa de arquitetura colonial onde funcionava a maternidade que cuspia diariamente, por todas as saídas e buracos, meninos e meninas, só não cuspia a Alegria que não melhorava e só partia. As duas mulheres se apoiavam uma no ombro da outra e choravam com muita calma, como se chorando pudessem examinar com cuidado aquele ferimento que trespassava a vida d’uma ponta a outra, rompendo as entranhas como um rio que se liberta da represa, uma torrente de dor às toneladas. 

Alegria resistiu durante cinco dias. No sexto anunciaram seu último respiro, um doutor com a barba bem feita e uns óculos de lentes grossas que lhe faziam parecer uma aranha. Mas foi como se Alegria houvesse conseguido assinar contrato com o lado de lá da morte de modo a deixar pelo lado de cá uma atmosfera luzente a contrastar com as sombras de outros tempos, os tempos da memória triste e dos temores – aqueles que se abrigavam, todos eles, à boca da noite.

As mulheres chegaram a pensar que aquele  desespero e  a sensação de castigo se davam pelo falatório nas esquinas de seu bairro, no seio da santa província do Grão, onde as pessoas teimavam em desaprovar o fato daquela pequena família ter duas mães, um bebê e nenhum pai. As línguas se enrabiolavam umas nas outras, transmitindo venenoso sumo que até parecia saciar a aridez dos medíocres. Diziam que aquilo não podia dar coisa boa, uma criança assim feita por duas mulheres, essas que eram cacho uma da outra porque provavelmente lhes havia faltado uma  pica de talento capaz de demovê-las dos instintos satânicos que as fazia sucumbir àquela espécie de inconcebível sentimento amoroso. Negativo. Isso não era de deus. Era afronta à biologia familiar, coisa antinatural que só se realiza por doença ou loucura.

Porque sim, sabe-se, para essas pessoas que cultivam pouquezas e vazios em pratos de fome, é melhor que a Alegria – mesmo que seja só uma alegriazinha simples, preciosa e indefesa, dessas que não fazem mal a ninguém – permaneça nessa condição: nascida sem início e com hora para acabar.

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O Liberal – 25.10.2017

Os Anjos

Um conto para Nossa Senhora de Nazaré

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Chegou à escola de teatro a notícia de que procuravam meninos e meninas para compor o elenco de um filme que seria gravado no período do Círio cujo título, “Quero ser Anjo”, alimentava nossas fantasias todas – nós que éramos justamente meninos e meninas com o hábito de nos travestir em criaturas angelicais quando cansávamos de ser demônios de botar fogo nas cortinas.

Passamos a desejar ardentemente aquele destino magnífico de entidades milagreiras expostas nos trípticos como molduras gentis do amor da Santa, a nossa Nazarezinha, rainha da Amazônia. Seríamos seus escudeiros, seus e de seu mundaréu de gente que entope as ruas todo segundo domingo de outubro. Amém. E, caralho, era cinema! A idéia de virar artista na tela grande deixava delirantes nossas vaidades infantis de modo que todas as mães se viram obrigadas a nos levar ao tal teste de elenco.

– Dá um sorriso, vira o corpo todo pra esquerda, agora olha pra frente, isso, agora vira pra direita, o corpo todo, isso e… foi. Obrigado, a gente entra em contato! –

Na sala onde éramos examinados constavam nas paredes fotografias da Bárbara, nossa colega de grupo, que já havia sido selecionada para fazer a protagonista. A nós restaram então as coadjuvâncias ou uma cova nos latifúndios da figuração.

Lucas, Mariana, João e Thayná pegaram um papel, os outros não. Eu imediatamente demonstrei a frustração numa birra, minha irmã por sua vez expôs seu coração magoado com requintada crueldade em uma de nossas brincadeiras na escola.

Começamos a improvisar uma cena exatamente igual àquela que tínhamos vivido na seleção de elenco. Luana, que era a mais velha do grupo, fez-se diretora escolhendo entre nós quais seriam as crianças que participariam do nosso filme de mentira. Após realizarmos todo o ritual de vira, desvira, para a esquerda, para a direita, ela sentenciou apontando para três ou quatro de nós: vocês serão os principais do filme. Depois, quebrou o pescoço em direção a Bárbara e desferiu: você, Bárbara, vai ser aquele anjinho torto que fica lá no fundo da cena e que ninguém enxerga.

Pra quê, meu deus?

Foi que a Bárbara saiu chorando e nós todos ficamos em dúvida se caíamos no riso ou se deveríamos ir atrás dela, agora improvisando alguma solidariedade. Luana se manteve na personagem da diretora, como se toda aquela situação e nossas reações seguissem um roteiro prévio que só ela conhecia. Esse foi um daqueles momentos em que a ficção se empapou na realidade e ficamos adultamente confusos sem saber desatar o problema.

Imagino que a Aninha tenha sido aquela que tomou coragem e foi atrás de Bárbara, nós aguardamos no mesmo lugar, esperançosos de que ainda estivéssemos no teatro, embora intimamente sentíssemos que Luana desenhara um plano secreto de vingança para ser executado através de nossa peça. Bárbara era a única que poderia tirar a prova dos nove. Quando voltaram as duas ela sorria, disse que o choro tinha sido de mentirinha. Ficamos ainda mais perdidos. Luana não sabia se aquilo era bom ou ruim. Até hoje, passados 18 anos, paira no ar a questão e agora já não tenho mais certeza, mas Nossa Senhora sabe, e ela tem conhecimento do que aconteceu, e ela está de olho em nós, carregando Jesus Cristo com uma das mãos e na outra, dá pra ver, tem uma chinela só esperando pra voar na nossa bunda.  

***

Gente

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De vez em quando eu e minha irmã fazemos dessas: quebramos o silêncio e tecemos rápidas conversas por telefone um tanto reveladoras.

Da última vez ela disse: estamos melhores agora, P.

Eu perguntei: como irmãs ou de um ponto de vista mais geral?

Como irmãs e separadas, como gente. Respondeu.

Eu e L. temos quase a mesma idade, apenas um ano e meio nos aparta. A imagem que para mim ilustra com precisão nossa irmandade é a das duas em um ônibus no final da tarde em Belém, sentadas lado a lado, chorando curtinho, doído e pra dentro: nosso pai estava internado em uma clínica psiquiátrica e nós voltávamos de uma dilacerante visita. Éramos adolescentes, eu tinha 16 anos e ela quase 18. O balanço do ônibus dava a impressão de que viajávamos em uma montanha-russa. Seguramos as duas no suporte do assento da frente como que numa tentativa de agarrar firme a própria vida, implorando silenciosas para que aqueles rasgos,  sendas e rachaduras nos devorassem com algum mínimo cuidado e delicadeza, porque já estávamos exauridas de tanto apanhar, nossos corpos passavam por um insustentável esgotamento físico e mental.

Com algumas amigas vi se formar esse vínculo de nó invisível que faz com que possamos nos acolher mesmo quando faltam palavras. Da última vez que fui ver o rio passei por essa sensação. Éramos seis mulheres e uma cria atravessando para o lado de lá da ilha, rindo mesmo por entre tristezas, num barquinho popopô.

Disse uma vez a Clarissa Pinkola Estés: a risada é uma das mais profundas expressões da sexualidade feminina. É irreversível quando mostramos os dentes mesmo se a dor por dentro insistentemente arranha e apedreja.

Decidimos ficar em um restaurante à beira d’água, pedimos um tambaqui na brasa, sucos de cupuaçu. Eu, Fernanda e Flávia tomamos uma cerveja. Clarisse deita na rede pendurada em um par de açaizeiros e tira um cochilo, ficamos de olho no filhote dela – o pequeno por entre o verde das árvores e do mato alterna sumiço e surgimento bravamente. Dimítria foi dar um mergulho mas logo volta para o almoço. Nos fartamos de peixe. Cuidado com as espinhas, diz a Maria. Segundos depois Flávia confessa que está há dez minutos engasgada sem, no entanto, entrar em desespero. Falamos em coro: come um pouco de farinha! Flávia viu na internet que não faz bem comer farinha para tirar espinha da garganta. Clarisse questiona: tu preferes confiar no Google ou confiar na gente? Flávia escolhe a gente.

Levantamos e seguimos para nos banhar naquelas águas lodosas, barrentas e de mistério infinito. Um caranguejo belisca o pé da Clarisse, quase me afogo de tanto gargalhar. Eu, Maria e Fernanda sentimos um temor místico ao mergulharmos. Dimítria, sereia, lembra de pegar o troco da conta depois de já estarmos embarcadas para voltar. Tiramos uma foto um pouco antes do cair da noite – todas fazendo pose, meio cafonas, meio belíssimas. Felizes. Felizes apesar de todos os problemas suportados com graça e coragem. Uma ao lado da outra, ni una menos, agarrando firme a vida, como fôssemos eu e L. naquele ônibus, rasgando o ventre do rio em viagem de montanha-russa, chorando pelos pais, pelos amores, pelas ausências, pelas dúvidas, pelas alegrias. Cada qual com sua espinha enterrada na garganta. Irmãs e gente. Estamos melhores agora. Não esqueçamos disso.

 

***

O Liberal  – 18.10.2017