O Coronelismo chega à Universidade

JOSÉPORFIRIO

No dia de ontem, quarta-feira, 29 de novembro de 2017, o prefeito da cidade de Senador José Porfírio, Dirceu Biancardi (PSDB), acompanhado por uma comitiva de aproximadamente 40 pessoas, dentre as quais estavam guarda-costas garantindo a “segurança” da ação, inviabilizou de modo autoritário o debate e estudo “As Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” que ocorria no auditório do Instituto de Ciência Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal do Pará.

Segundo o boletim de ocorrência, aberto pela professora titular do Instituto Rosa Elizabeth Acevedo, “(…) o prefeito de Senador José Porfírio – Dirceu Biancardi – se apossou do espaço, promovendo turba, ameaçando aos pesquisadores que apresentavam o seminário e por fim mantiveram alunos e mestres em cárcere no local, até mesmo impossibilitando o uso do banheiro.”.

Nas fotografias divulgadas ainda ontem pelas redes sociais Dirceu Biancardi ocupa a bancada em uma postura ostensiva, com o dedo em riste e expressão furiosa, o chapéu de ponta estilo velho (agro) oeste se revela como o grande símbolo da mentalidade coronelista que vigora no interior do estado do Pará e também na capital, Belém, de uma maneira velada, por sob o acobertamento das alianças de nossa tardia aristocracia urbana.

O seminário “As Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” foi organizado pela partilha de análises sobre os impactos da mineradora Belo Sun sobre a região afetada pela hidrelétrica de Belo Monte. Realizadas através de um ciclo de encontros ao longo de dois dias, as discussões críticas ao projeto de implantação de Belo Sun, maior mina de ouro a céu aberto do país, na área da Volta Grande do rio Xingu, foram pautadas sob pontos de vista jurídicos, políticos e ambientais. Estiveram envolvidos no encontro representantes do poder público, de movimentos sociais e da comunidade acadêmica da UFPa e de outras universidades públicas.

A programação foi preenchida por temáticas de interesse social amplo e irrestrito, como a expressão de uma das responsabilidades das instituições públicas brasileiras junto à comunidade. Ao interromper o debate o prefeito Dirceu Biancardi feriu um dos fundamentais princípios do Estado democrático: o direito à crítica sobre os sistemas políticos e sociais estabelecidos. O prefeito confunde intenções privadas com o necessário foco público da extensão universitária e, afirmando defender os interesses da população de Senador José Porfírio, na realidade salvaguarda privilégios históricos direcionados às elites regionais e ao empresariado.    

Em nota, a assessoria da prefeitura de Senador José Porfírio respondeu às denúncias divulgadas nas redes sociais logo após o ocorrido, negando que o gestor municipal Dirceu Biancardi tenha promovido o cárcere dos participantes do evento. Afirma-se no documento que o prefeito se dirigiu ao local para “defender a posição e olhar do município em relação ao tema tratado que naquele momento desrespeitava [dizia respeito] ao município, no entanto este se quer [sequer] havia sido convidado a dar seu posicionamento.”.

Ainda na nota: “A gestão repudia quaisquer manobra nas informações que crie atmosfera de arruaça em instituição federal, como está sendo erroneamente colocado por terceiros.”.

Para Dirceu Biancardi um evento de discussão sobre impactos sociais sugere a criação de uma “atmosfera de arruaça”, o prefeito inverte novamente o sentido e a importância do debate público sobre questões concernentes à vida das populações do interior do estado.

A Universidade Federal do Pará precisa oficialmente se manifestar sobre o ocorrido para finalmente pautar seu posicionamento nesse momento histórico determinante no qual inclusive grande parte da população das cidades impactadas por projetos de hidrelétricas e mineradoras, diante da impassibilidade do poder público, têm aderido ao discurso do empresariado visando a mínima garantia de sua sobrevivência. A situação é crítica e o corpo docente, discente e reitoria universitários devem anunciar de que lado estão neste conflito que se acirra para além dos muros acadêmicos. Essa definição ideológica inclusive pode inaugurar um outro momento político na instituição, em face de todos os aspectos históricos também oligárquicos que sustentam a sua fundação.

***

Paloma Franca Amorim

 

ATUALIZAÇÃO 14:25:

 

NOTA DA REITORIA DA UFPA SOBRE O OCORRIDO:

A Reitoria da Universidade Federal do Pará vem a público repudiar veementemente a agressão à autonomia universitária de que a instituição foi alvo nesta quarta-feira, 29/11, por ocasião de um debate sobre projetos de mineração no estado do Pará. Na ocasião, o Prefeito do município de Senador José Porfírio, Sr. Dirceu Biancardi, acompanhado do Vice-Prefeito e de três vereadores daquele município, impediu a realização da atividade acadêmica programada e impossibilitou que os responsáveis pelo debate ou quaisquer pessoas afetas à UFPA saíssem do auditório para entrar em contato com o serviço de segurança institucional ou com a Administração Superior da UFPA. Os apoiadores do prefeito também agrediram verbalmente os presentes à atividade, coordenada pela Profa. Dra. Rosa Acevedo Marin. Exercer a liberdade de expressão e enfrentar os grandes debates nacionais com os instrumentos da ciência e do pensamento crítico são aspectos essenciais do trabalho das Universidades, no ensino, na pesquisa e na extensão, daí o princípio constitucional que estabelece a sua autonomia. Obstar, nesse ambiente, a manifestação de ideias e posições sobre fatos de qualquer natureza é impeditivo da própria existência da instituição universitária e merece ser intensamente repelido por toda a sociedade. A agressão à UFPA foi também uma agressão ao Estado Democrático de Direito e mais uma expressão do obscurantismo que anda a ameaçar as mais importantes instituições do país. A UFPA ressalta que está solicitando a apuração detalhada dos fatos citados, assim como a devida responsabilização dos autores da agressão. Por fim, reitera que não será tolerante com qualquer tentativa de intimidação de membros da comunidade universitária e tomará as providências necessárias para resguardar o seu direito à livre manifestação e à difusão do conhecimento aqui produzido.

A Reitoria da Universidade Federal do Pará vem a público repudiar veementemente a agressão à autonomia universitária de que a instituição foi alvo nesta quarta-feira, 29/11, por ocasião de um debate sobre projetos de mineração no estado do Pará. Na ocasião, o Prefeito do município de Senador José Porfírio, Sr. Dirceu Biancardi, acompanhado do Vice-Prefeito e de três vereadores daquele município, impediu a realização da atividade acadêmica programada e impossibilitou que os responsáveis pelo debate ou quaisquer pessoas afetas à UFPA saíssem do auditório para entrar em contato com o serviço de segurança institucional ou com a Administração Superior da UFPA. Os apoiadores do prefeito também agrediram verbalmente os presentes à atividade, coordenada pela Profa. Dra. Rosa Acevedo Marin. Exercer a liberdade de expressão e enfrentar os grandes debates nacionais com os instrumentos da ciência e do pensamento crítico são aspectos essenciais do trabalho das Universidades, no ensino, na pesquisa e na extensão, daí o princípio constitucional que estabelece a sua autonomia. Obstar, nesse ambiente, a manifestação de ideias e posições sobre fatos de qualquer natureza é impeditivo da própria existência da instituição universitária e merece ser intensamente repelido por toda a sociedade. A agressão à UFPA foi também uma agressão ao Estado Democrático de Direito e mais uma expressão do obscurantismo que anda a ameaçar as mais importantes instituições do país. A UFPA ressalta que está solicitando a apuração detalhada dos fatos citados, assim como a devida responsabilização dos autores da agressão. Por fim, reitera que não será tolerante com qualquer tentativa de intimidação de membros da comunidade universitária e tomará as providências necessárias para resguardar o seu direito à livre manifestação e à difusão do conhecimento aqui produzido.

 

Belém, 30 de novembro de 2017.
Emmanuel Zagury Tourinho
Reitor da UFPA

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