Vento Virado

Será que Leila tem sonhado?

Tenho sonhado Leilas e outras miríades, jogos de futebol, um menino de bigodes me empurrando na escola depois de declarado o meu amor pela professora. Vento virado. Eu adoro sonhar um vento virado. Nem sei direito explicar como faço. Sinto o vento virado chegando pela nuca e salto em cima dele abocanhando-o num vigor de fera desnuda,

língua a língua,

braçadas tentaculares, pernas mornas

contraio todos os nervos que preparam o disparo contra o batalhão inimigo,

esse tédio, esse terror dos dias,

e me afundo em explosões, fogos de artifício, luzes,

tudo plugado

tudo como se eu fosse o pranteio

da fogueira

a consumir-se em braseiro aqui dentro

eu adoro sonhar um vento virado

como o vento virado todinho e ainda repito o prato.

Gostaria que Leila sonhasse nesse tempo em que está adormecida no hospital, buscando a cura, lambendo as próprias feridas, recuperando o corpo. Gostaria que visitasse aquele sonho em que eu estava num bosque à beira da praia em Montevidéu, na Rambla. Até onde minha vista alcança tudo parece ser alegria. O cheiro do mar é avinagrado e me anima. As pedras ali no meio do oceano se confundem com as embarcações ancoradas, minha solidão é uma delas. Ouço as folhas das árvores dançando num farfalhar contínuo – nunca tinha vivido nada assim, nunca tinha visto esse sol, esse amarelo todo, esse verde que é vermelho em mim. O clima está daquele modo iluminado e frio, invernal, agradável, eu gosto das praias geladas mais do que das praias cálidas. Estou aquecida porque uso um casaco grosso que era do meu pai.

Eu me aproximo de um graveto enterrado na grama e tomando-o feito um lápis, dirijo-me às dunas para deixar um recado a Leila que deve ser lido de cima, do céu, de dentro de um monomotor desses que cria imagens no azul com fumaça e manobras engenhosíssimas. 

Quando Leila passar por esse sonho a bordo do tal aviãozinho, usando por segurança um capacete cheio de listras, paraquedas e aqueles óculos enormes que protegem o rosto inteiro, poderá olhar para baixo e ver ali desenhadas na areia letras garrafais feitas em uma escritura que me terá tomado horas e horas a fio, prazerosas horas em que me dedico a produzir um recado para o futuro, passível de apagamento pelo ir e vir das ondas  (mas eu não me importo, eu confio. Eu confio.), e ela lerá, lerá com os olhos e com o coração:

“seja bem vinda de volta, Leila”

quando isso acontecer eu já terei despertado, estarei trabalhando, no horário de aula falarei para os meus alunos o quanto sou louca por eles e o quanto o que eu ensino seguramente não serve pra nada, chegarei em casa, almoçarei e depois sentarei em minha mesa para escrever o texto a ser publicado na próxima quarta-feira no jornal.    

Quando Leila acordar vai nos trazer um regalo,

nem que seja pequenininho, de ouro falso, inflamável

Ela o terá acomodado por entre as duas mãos em concha, e nos olhará com uma expressão faceira convidando-nos a travar aproximação com o artefato qual se tratasse de um pássaro raro de asas muito coloridas, um topitô talvez, desses que botam ovos de argila.

Todos nós chegaremos mais perto e alguém ousará perguntar:

– o que é isso, Leila?

E Leila, de novo enredada por aquele seu charme de madrugada naturalmente misterioso, anunciará:

– isso, meus amigos, é o corte da vida na barriga da morte.

***

O Liberal Jornal, 29.11.2017

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