Gestação

A mãe jamais acreditaria na história verdadeira. Quem acreditaria? Para a família inteira  não passava de uma mentirosa, cabeça de fragilidades, pensadora de tragédias intermitentes. Era mais fácil falar que um sujeito na rua a obrigara a fazer coisas

e ela teve de fazer.

Ainda assim logo diriam: mas você estava vestida como? É isso que acontece quando vocês ficam aí de agarro na rua autorizando os homens a fazerem coisas.

Coisas. Essas coisas de pegar pelo braço, levar para uma fresta sem saída, terreno baldio, fica quietinha.

Não acontecera nada disso. Fora o primo mesmo. Aquele que dormia no quarto ao lado. Fez o que quis e ainda falou que se ela contasse para qualquer um ele negaria.  Aliás, ninguém lhe daria confiança , afinal, ele era mesmo um bom rapaz, cristão, das honestidades, trabalhador e, é preciso dizer, tinha uma namorada com quem se casaria de igreja e de cartório assim que terminasse os estudos.

Ela, por outro lado, subia no telhado da escola, matava aula, sexualidade indefinida, falava palavrão, era apelidada de maria machinho por jogar futebol no meio dos moleques, fumava escondido, aos 30 anos teria uma coleção de tatuagens sobre o corpo, insônia, depressão, ímpetos de alegria com fagulhas quase invisíveis de assombro cotidiano, escreveria cartas de amor para criaturas inexistentes, tomaria um chopp em Santa Cecília no final da tarde, sozinha, observando os passantes em meticulosa pesquisa para um próximo conto. Embarcaria em ônibus de demorada travessia com alguma excitação apenas por ganhar tempo para botar nos fones de ouvido o disco inteiro do Tom Waits enquanto desinteressadamente  fitaria as gotas de chuva colididas no vidro da janela, escorrendo uma a uma como corpinhos de água que não conseguiram se salvar e que ainda tentam, sob frustradas intenções, agarrar-se a alguma chance de sobrevivência, mas o vidro é escorregadio e elas apenas deslizam e caem. Waits sussurra.

 Baby, all that

I can think of

is Alice

Apesar de tudo, aquele lhe parecia um futuro glorioso.

O olhar fixo e tão compenetrado quase podia, uma pedra, furar o teto do quarto. Naquela massa atmosférica de dois metros por dois metros cabia uma cama, um armário, um ventiladorzinho preguicento e toneladas ébrias de pensamentos que se abriam como rotas alternativas umas às outras, contudo incapazes de levar a lugar algum. Assim, cada vez que ela fechava os olhos e tentava se concentrar nos possíveis caminhos de fuga para resolver o problema do bebê crescendo dia após dia dentro da barriga percebia-se encurralada por muros que emergiam do chão em razão de segundos. Milhares de muros cinzentos e o bebê crescendo dentro da barriga. Preferia que fosse dentro de uma caixa, então ela poderia de vez em quando ir olhar para matar a curiosidade científica que lhe era como uma marca de nascença e perceber como andavam as coisas, o florescimento da vida, o acasalamento das células embrionárias,  a formação das estruturas primordiais do ciclos de desenvolvimento fetal, o desdobrar da notocorda, a pulsação da ponte umbilical, os batimentos cardíacos ressoando aquosos em cadência ágil, e na hora marcada depois do parto levaria a caixa com o bebê embalada para presente, deixando-a ao pé daquela enorme árvore de natal que fica bem ali no meio do Boulevard Shopping Belém.

***

O Liberal Jornal – 15.11.2017

 

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