O Besouro ou Confissão a Felipe Cruz

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Felipe, a Moça e Dimítria

Quando puxou a pelinha no canto da unha, fazendo sangrar a borda do dedo, imaginou que até mesmo essa mínima dor ele poderia sentir ao seu lado, como se ambos fossem partes vitais de um mesmo corpo, outrora uno, recentemente dividido por força sacro romana ou intempérie qualquer para alimentar as jogatinas do destino disfarçadas sob as alcunhas do acaso.

Fazia tempo que ela não se percebia desse modo: a sentir os próprios pulmões inflados no peito de outro.

Dali em diante passou a agradecer todos os santos e pedaços de vento que fossem por ventura responsáveis em manter o corpo do amigo forte o suficiente para que sobrevivesse até setembro, cumprindo a tarefa de esperá-la, porque ela chegava, e nenhum dos dois poderia ter suspeitado, nenhum deles sabia que o tempo cuidara daquele encontro com as próprias garras.

Depois ficaram sabendo e tomaram nota e assinaram contrato e tiveram a certeza de que já se amavam há muito, como se o amor pudesse, antes de ser carne, ser intuição que voa por aí, anunciando em segredo aos ouvidos: Ele virá. Ela virá. E terás apenas que fazer o que deve ser feito.

E o que tinha de ser feito naquela tarde era estar à mesa da livraria e iniciar uma conversa que só ganharia desfecho no dia seguinte. Os dois avidamente garantiram que aquele momento fosse uma maneira de recuperar todos os anos perdidos, décadas passadas, em que existiram sem desconfiar minimamente que, talhados na mesma pedra, eram um do outro -não por incompletude ou solidão, mas pela inteireza das partes que se aninhavam em si como aves irmãs. Ele estava certo, os dois pareciam filhos brotados d’uma mesma raiz. Já não importavam as expectativas, as mágoas e os traumas, a vida enfim começava do princípio e tinha rugas e era de insondável beleza sem que por isso deixasse de ser, também, tão má.

Ela puxou a pelinha no canto da unha que houvera sido machucada por uma coceira intensa fruto d’alguma mordida de inseto do tipo voante que provavelmente adorava hemácias, leucócitos, tanino e maniva. Poderia ser um besouro desses de casca de quitina, dura, dourada e farfalhante, cheia de filamentos obtusos onde se escondem glândulas odoríferas e células receptoras de nicotina.

O amor é a parte brilhante, a parte que reflete placidamente o ouro solar, da casca desse besouro.

O besouro que outrora sofrera tentativa de assassinato por esmagamento.

Duas mãos espalmadas e dolosas quaisquer tentaram tirar-lhe a vida, mas foi tudo em vão porque essas mãos tinham nas palmas cada uma um buraco santificado por onde o besouro tratou de se embrenhar desviando heroicamente do triste fim. Quando o assassino deu por si, ele já sobrevoava a base aérea da capital, cruzando os blocos de calor e umidade dos céus para alcançar, enfim, o dedo da moça que não era donzela nem nada, arrancando-lhe um naco da carne do fura-bolos, abrindo uma fresta na rotina através da qual um jorro de sangue  a fez notar que já era outubro. 

Levou o dedo à boca e lambeu a ferida, em seguida voltou a digitar o conto, o movimento da urgência fez com que o sangue escorresse novamente, dessa vez por cima do teclado, as letras se tingiram de vermelho vivo.

Ele pode sentir essa dor – pensou a moça pela última vez enquanto eu me levantava ríspida em direção à cozinha para apanhar o álcool e um paninho de limpeza.

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O Liberal Jornal – 3.10.2017