O Lutador

Ao ler as manchetes do jornal me deparei com mais uma dessas histórias que nos roubam longos períodos de reflexão, memória, elaboração – porque não há exercício mais prazeroso do instinto do que o de pensar sobre eventos imercantilizáveis e corriqueiros.

Deparei-me com a notícia da morte do boxeador Gil Carvalho, afogado nas águas do rio Guajará. Uma história espinhosa e cruel envolvendo glória, disputa, álcool, um treinador melancólico e angustiado. No topo da matéria havia uma fotografia talvez dos anos 80 que estampava toda a trama: Gil, ao lado de quatro homens, fita a lente erguendo a auspiciosa luva vermelha num aceno implacavelmente tímido para o invisível público. Lembrei-me de uma fala atribuída ao Julio Cortázar, bem curtinha, sobre a diferença entre o conto e o romance: “o romance se vence por pontos, o conto por nocaute”. É uma definição massa.

Voltei ao tempo em que havia um saco de pancadas pendurado na casa da minha avó, o pai treinava lá e eu às vezes brincava de ser lutadora. Outro dia assisti a um documentário sobre o Muhammad Ali, fiquei pensando que eu quero ser ele.

Novamente a foto. Surpresa. Eu conhecia o homem à esquerda do Gil Carvalho, era o seu Cordeiro, inspetor da escola onde estudei na adolescência dos anos 2000. Não havia dúvida alguma, reconheci pelo olhar denso sempre tão bonitamente sereno em contraponto à expressão grave e carrancuda em face de nossos desarranjos estudantis.

Uma vez o encontrei fazendo a segurança de uma top festa cafonalha de quinze anos. Nós nos vimos na porta da casa de eventos e rapidamente nos falamos. Eu perguntei como iam as coisas, se estava trabalhando, ele sorriu e disse que sim. Eu disse bom trabalho e fui entrando. Depois fui saindo e lá estava ainda, firme e forte. Tchau seu Cordeiro. Tchau. Na segunda-feira novamente ele na escola tentando nos devolver à sala de aula – e nós escalando pelas paredes feito umas lagartixas deslizantes e fugidias.

Matei um horário inteiro tentando escrever um versinho, o professor de física pegou e leu, eu dizia que nem todo cordeiro divino era branco de pelúcia, que havia os cordeiros negros de carne e osso e que seu Cordeiro era o cordeiro negro de um Deus também negro, sagrado e justo. O professor riu e disse que eu era maluca. Era nada. O seu Cordeiro nos cuidava e cuidava de nossos pecados com integridade, eu sabia. Na escola, na rua, nas festinhas idiotas, era como se estivesse em todos os lugares olhando por nós, mas não como aqueles anjos aparvalhados que me desorientavam em pesadelos, mas como um homem bom que labutava dignamente obrigado a cuidar do bem estar dos outros.

O seu Cordeiro, mais escuro que todos nós caboclos, filhos e netos da cruza de invasores com indígenas, carregava nos ombros a diáspora dos seus e o peso da africanidade que lhe fora historicamente usurpada ecoando ainda tão silenciosa na Amazônia.

Ao lançar meus olhos novamente sobre a fotografia no jornal vejo o boxe, as correntezas tenazes do rio que engole os corpos, vejo seu Cordeiro jovem e me pergunto onde estará. E me pergunto quais foram as narrativas que eu não ouvi (como eu as ouviria?), lançando-me a essa pequena inquietude, que é de todo escritor, de passar salpicando invenções nas aparentes lacunas da vida alheia. Obrigada, seu Cordeiro, e um abraço.

***

Luedji

***

O Liberal Jornal – 1.11.2017

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s