Alegria

Veio uma meninazinha, meio indiazinha, quase natimorta e decidiram chamá-la Alegria nutridas por alguma esperança de que o nome lhe pudesse conceder forças para vingar-se viva. Houve que as contrações chegaram antes do tempo e no correcorre do hospital acabou que os médicos decidiram em junta militar despregá-la de dentro do útero através de um único puxão, extraindo de uma vez só sua cabeça e corpinho, tudo bem miúdo como se a Alegria  fosse um mal verdolengo que não passara da semente.

Para vê-la as mães precisavam ficar  a alguns palmos de distância da incubadora. Elas se davam as mãos e tentavam observar com coragem a primeira filha desbravando tentativas de  sobrevivência com aquele movimento de peito arfante, um coraçãozinho de colibri a cento e vinte mil batidas por segundo, os olhos cerrados ainda cegos de mundo, as mãos apertadas em caracóis de dedos e a pele oscilando entre os claros e escuros da irrigação sanguínea.

Proteínas, banhos de uma luz intensa e amarelada, o barulho frequente das máquinas de medir a vida, agudas, pontilhando os silêncios com sua cadência imprevisível e angustiante. Lá fora, os passeios no pátio eram perfurados pelo bafo quente dos dias de abril, e ainda assim parecia mais confortável estar para além das portas da enorme casa de arquitetura colonial onde funcionava a maternidade que cuspia diariamente, por todas as saídas e buracos, meninos e meninas, só não cuspia a Alegria que não melhorava e só partia. As duas mulheres se apoiavam uma no ombro da outra e choravam com muita calma, como se chorando pudessem examinar com cuidado aquele ferimento que trespassava a vida d’uma ponta a outra, rompendo as entranhas como um rio que se liberta da represa, uma torrente de dor às toneladas. 

Alegria resistiu durante cinco dias. No sexto anunciaram seu último respiro, um doutor com a barba bem feita e uns óculos de lentes grossas que lhe faziam parecer uma aranha. Mas foi como se Alegria houvesse conseguido assinar contrato com o lado de lá da morte de modo a deixar pelo lado de cá uma atmosfera luzente a contrastar com as sombras de outros tempos, os tempos da memória triste e dos temores – aqueles que se abrigavam, todos eles, à boca da noite.

As mulheres chegaram a pensar que aquele  desespero e  a sensação de castigo se davam pelo falatório nas esquinas de seu bairro, no seio da santa província do Grão, onde as pessoas teimavam em desaprovar o fato daquela pequena família ter duas mães, um bebê e nenhum pai. As línguas se enrabiolavam umas nas outras, transmitindo venenoso sumo que até parecia saciar a aridez dos medíocres. Diziam que aquilo não podia dar coisa boa, uma criança assim feita por duas mulheres, essas que eram cacho uma da outra porque provavelmente lhes havia faltado uma  pica de talento capaz de demovê-las dos instintos satânicos que as fazia sucumbir àquela espécie de inconcebível sentimento amoroso. Negativo. Isso não era de deus. Era afronta à biologia familiar, coisa antinatural que só se realiza por doença ou loucura.

Porque sim, sabe-se, para essas pessoas que cultivam pouquezas e vazios em pratos de fome, é melhor que a Alegria – mesmo que seja só uma alegriazinha simples, preciosa e indefesa, dessas que não fazem mal a ninguém – permaneça nessa condição: nascida sem início e com hora para acabar.

***

O Liberal – 25.10.2017

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