Os Anjos

Um conto para Nossa Senhora de Nazaré

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Chegou à escola de teatro a notícia de que procuravam meninos e meninas para compor o elenco de um filme que seria gravado no período do Círio cujo título, “Quero ser Anjo”, alimentava nossas fantasias todas – nós que éramos justamente meninos e meninas com o hábito de nos travestir em criaturas angelicais quando cansávamos de ser demônios de botar fogo nas cortinas.

Passamos a desejar ardentemente aquele destino magnífico de entidades milagreiras expostas nos trípticos como molduras gentis do amor da Santa, a nossa Nazarezinha, rainha da Amazônia. Seríamos seus escudeiros, seus e de seu mundaréu de gente que entope as ruas todo segundo domingo de outubro. Amém. E, caralho, era cinema! A idéia de virar artista na tela grande deixava delirantes nossas vaidades infantis de modo que todas as mães se viram obrigadas a nos levar ao tal teste de elenco.

– Dá um sorriso, vira o corpo todo pra esquerda, agora olha pra frente, isso, agora vira pra direita, o corpo todo, isso e… foi. Obrigado, a gente entra em contato! –

Na sala onde éramos examinados constavam nas paredes fotografias da Bárbara, nossa colega de grupo, que já havia sido selecionada para fazer a protagonista. A nós restaram então as coadjuvâncias ou uma cova nos latifúndios da figuração.

Lucas, Mariana, João e Thayná pegaram um papel, os outros não. Eu imediatamente demonstrei a frustração numa birra, minha irmã por sua vez expôs seu coração magoado com requintada crueldade em uma de nossas brincadeiras na escola.

Começamos a improvisar uma cena exatamente igual àquela que tínhamos vivido na seleção de elenco. Luana, que era a mais velha do grupo, fez-se diretora escolhendo entre nós quais seriam as crianças que participariam do nosso filme de mentira. Após realizarmos todo o ritual de vira, desvira, para a esquerda, para a direita, ela sentenciou apontando para três ou quatro de nós: vocês serão os principais do filme. Depois, quebrou o pescoço em direção a Bárbara e desferiu: você, Bárbara, vai ser aquele anjinho torto que fica lá no fundo da cena e que ninguém enxerga.

Pra quê, meu deus?

Foi que a Bárbara saiu chorando e nós todos ficamos em dúvida se caíamos no riso ou se deveríamos ir atrás dela, agora improvisando alguma solidariedade. Luana se manteve na personagem da diretora, como se toda aquela situação e nossas reações seguissem um roteiro prévio que só ela conhecia. Esse foi um daqueles momentos em que a ficção se empapou na realidade e ficamos adultamente confusos sem saber desatar o problema.

Imagino que a Aninha tenha sido aquela que tomou coragem e foi atrás de Bárbara, nós aguardamos no mesmo lugar, esperançosos de que ainda estivéssemos no teatro, embora intimamente sentíssemos que Luana desenhara um plano secreto de vingança para ser executado através de nossa peça. Bárbara era a única que poderia tirar a prova dos nove. Quando voltaram as duas ela sorria, disse que o choro tinha sido de mentirinha. Ficamos ainda mais perdidos. Luana não sabia se aquilo era bom ou ruim. Até hoje, passados 18 anos, paira no ar a questão e agora já não tenho mais certeza, mas Nossa Senhora sabe, e ela tem conhecimento do que aconteceu, e ela está de olho em nós, carregando Jesus Cristo com uma das mãos e na outra, dá pra ver, tem uma chinela só esperando pra voar na nossa bunda.  

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