Resenha crítica do livro|Por Evanilton Gonçalves|OperaMundi e Painel Acadêmico

‘Eu preferia ter perdido um olho’, uma chave que abre a couraça de nosso tempo

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito; autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. 

Antes de abrir Eu preferia ter perdido um olho (Alameda, 2017), primeiro livro de Paloma Franca Amorim, multiartista paraense que reside em São Paulo, me encontro julgando o livro pela capa: uma cabeça de jacaré com a boca aberta e olhar intransigente encontra-se fixada ao Norte do livro, que, por sua vez, em seu formato, me lembra um rio. Mais embaixo, preenchendo a brancura do fundo: o título, o nome da autora e da editora, tudo ali, agrupado no que julgo ser o Sudeste da obra. Está formada a geografia.


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O livro reúne 52 textos que Paloma publicou ao longo dos anos no jornal paraense O Liberal. É até difícil acreditar que esses textos circulassem no jornal, porque sua densidade e uma maior liberdade de estilo me parecem incomuns nesse meio.

Logo percebi algo interessante: as narrativas quebram o protocolo de leitura esperado para um livro que é fruto da reunião de textos antes publicado em jornal. É intensa a abordagem analítica sobre variados temas: inocência, crueldade, descobertas, maturidade, incidentes da vida, deus, morte e amor. Embora capture muitos fatos do cotidiano e do noticiário, a autora os transforma com a sua “régua do fantástico”, de modo que pouco importa se o gênero é crônica ou conto, ela investe em narrativas recheadas de imagens poéticas. É possível ler trechos como esse: “E eu fiquei por aqui a desenhar navios de guerra em meu peito”.

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito. Trata-se de alguém que manipula a palavra com habilidade pelas correntezas de nosso tempo. A voz em primeira pessoa atravessa o corpo e entranhas da autora para se lançar ao mundo: “Vou falar de minha parte porque a minha parte, segundo eu, é a minha verdade e só dela eu sei e posso falar”. Na apresentação e no prefácio, a escritora é comparada à Clarice Lispector, mas vi em seus textos um diálogo muito mais forte com a obra da norte-americana Lydia Davis, justamente pela estranheza peculiar como aborda a vida.

Reprodução

Em alguns momentos do livro, surgem páginas com micropoemas, em fundo preto, com ilustrações de um dupla de peixes que ora se encontram, muito íntimos, ora parecem seguir em fluxos divergentes — completos desconhecidos. Aqui me parece residir uma observação entre parênteses: a fugacidade do afeto, a incerteza e insegurança do nosso tempo, ou o que Bauman chama de “modernidade líquida”.

Professora de teatro formada pela USP, integrante do grupo de samba Sambadas e do coletivo de arte e cultura feminista, com o incrível nome: Vulva da Vovó, Paloma usa a palavra de forma interseccional e o resultado, diferente do que se poderia imaginar — um atrito ligeiro e panfletário, pelo contrário, dá lugar a uma literatura potente e inventiva, visual e sonora, divertida e feroz como a vida.

A autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. No emblemático texto intitulado Artifícios de um Maurício civilizado, a narradora diz: “As mangueiras abraçaram o crime com folhagem cheia, a copa das árvores obstruiu a visão de deus, que não pôde julgar o acontecido”.

Gosto quando o livro me transporta para outras paragens ao passo que delineia as minúcias ordinárias do cotidiano provocando estranhamento. E o livro de Paloma tem essa formidável façanha. Ao tematizar as questões de gênero e de classe, por exemplo, a autora me fez pensar na aclamada série The Handmaid’s Tale, criada com base no romance homônimo (No Brasil publicado com o título O conto da aia), da Margaret Atwood, primeiro, porque na série, num dos primeiros episódios, um trecho bíblico surge para dar razão a brutal violência que uma personagem sofre ao ter um olho arrancado, lhe proporcionando redenção divina: “se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. Mateus 5:29”; segundo, porque, tanto no livro de Paloma quanto na série, existe uma tomada de consciência feminina que busca dar um curto-circuito no status quo. A série distópica encarna um regime totalitário e teocrático, no qual as mulheres são vistas como propriedade do Estado, o que nos remete à essa assustadora guinada do conservadorismo em nosso País, que já é racista e misógino por excelência.

“Eu ando justamente daquele modo que uma moça de bem não deveria andar. Não há culpa.”, diz uma voz no texto Leal. Portanto, impossível ignorar a questão de gênero: é um livro escrito por uma mulher – reconhecendo-se aqui as variações de caráter e de comportamento que o uso desse rótulo implica –, uma das quais se fez presente na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty 2017, através da Flip Zona, convidada para a mesa Páginas Anônimas – a literatura que o Brasil faz e você desconhece.

O que temos aqui é uma jovem escritora destemida, que, pelas frestas, explora, de maneira concisa e irônica, os absurdos do nosso tempo: “Que possas me livrar das aspas – pelo amor de deus: aspas apenas pelo respeito da citação e não para domesticar mitos ou maquiar a barbárie”.

Recheada por referências que passeiam pelo universo das artes, a narrativa valoriza a ambivalência humana, nela cabem a sonoridade de Elza Soares, Wilson das Neves, Duke Ellington, John Coltrane e também de Chet Baker; também cabem o poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos, a poeta Gertrude Stein, a ficcionista Carson McCullers, o dramaturgo Tennessee Williams, a filósofa Simone de Beauvoir, além de trechos fantásticos como esse, que afirmam sua interlocução literária: “É a estirpe dos Buendía, por completo, na contradição de tentar salvar a própria pele individualmente sem perceber que uma pele não se salva sem a outra.”

A voz filosófica e melancólica presente no livro embala a aflição que vejo como ponto de encontro da literatura contemporânea: “Porque antes de chegares com tuas certezas eu já me lançava por inteiro nesses mistérios medíocres que viram poemas grandiosos de gente branda. Gente escassa. Gente pouca. Gente grávida de vazio. Gente que cuida da vida dos outros como se a vida dos outros fosse um bolo assando no forno.”

Acredito que o texto O manto do rinoceronte sintetiza bem o espírito desse primeiro livro de Paloma. Nele, é possível ler: “Minha avó parecia um rinoceronte bem como tantas pessoas cheias de couraça por aí que permitiram o nascimento de um chifre de marfim entre as ventas, como se um chifre de marfim as pudesse proteger desses rodamoinhos em que tropeçamos depois que a vida nos traga pra dentro dos próprios pulmões.”

Acho importante pontuar a surpresa do jornalista e editor Haroldo Ceravolo Sereza na orelha do livro. Eu não sabia, mas ao final da leitura iria concordar com ele, afinal, me senti diante: “[…] de uma nascente que marcará […] a paisagem literária dos anos seguintes”.

A minha conclusão é de que “Eu preferia ter perdido um olho” é um livro corajoso que funciona como uma chave que abre a couraça de nosso tempo.

***

*Evanilton Gonçalves é soteropolitano. Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e Mestre em Língua e Cultua na mesma instituição. Autor de Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017).

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