Procissão

corda

Os meninos acordam às quatro para formar o batalhão do carro dos desejos. Levantam-se preguiçosos mas excitados, fazem o asseio, vestem a farda escolar e se alimentam de pão com manteiga e café com leite preparados por uma sonolenta mãe que sente entre bocejos um orgulho por mandar as crias para o meio da multidão. Do lado de fora da porta há um cartaz com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Na entrada do vizinho também há, do lado esquerdo, do lado direito, até a numeração mais escassa do final da vila.

Mais para a metade da manhã já se pode sentir aquele alastrar-se do cheiro de comida – maniçoba, vatapá, pato no tucupi, arroz de jambu, doce de cupuaçu. Inúmeros e inomináveis aromas se vão multiplicando pelo ar, embriagando a gana de toda gente que, embora faminta, só vai se sentar para o banquete depois que a santa chegar ao seu destino final, atravessando pela barriga da serpente de asfalto o caminho que separa uma igreja da outra, a Sé da Basílica, lentamente e com paciência em sua berlinda de ouro, toda enfeitada de flores, velada por seus filhos, seus seguidores, seus promesseiros.

Orações guiam a marcação do compasso, homens antigos com mantos e terços pendurados são os escolhidos para conduzir o cronograma da passeata. Outros, sem sapatos, carregam com os braços erguidos, acima de suas cabeças, tijolos, barquinhos de miriti, miniaturas de uma morada, num jogo metonímico e orgânico secular em que os objetos aparentemente sem nenhuma relação se transformam em representações de pedidos, necessidades a serem atendidas por meio de uma benção, uma graça.

Enquanto isso os poderosos observam tudo de cima, na varanda de Fofó de Belém  onde se diluem em gloriosa massa de convidados, figuras distintas oriundas dos celeiros sudestinos. Todos brindam com taças demi preenchidas com espumante – de cuja qualidade se duvida – o testemunho da fé alheia, o circo grotesco e digno de prêmios internacionais de fotografia do povo exausto castigado em sede que mesmo exausto e castigado em sede continua caminhando, caminhando, caminhando – como se caminhar fosse nesse naco de mundo o único jeito de estar vivo.

As cores pulsam nas fitinhas vendidas em paus de miriti, os moleques apanham carteiras, todos se eriçam quando o movimento dos milhares de corpos começa a anunciar  a aproximação da corda, o dragão de duas cabeças que ziguezagueante faz varredura no espaço tragando tudo e todos para dentro de si. Porque violento, indestrutível e miseravelmente contornado por belezas, é o único fio umbilical possível entre a Mãe da Amazônia e sua prole.

O almoço é farto. Como estivessem em um rito medieval as pessoas só se levantam da mesa quando já não podem mais respirar porque o estômago alargado subtraiu o território dos pulmões. Um tio barrigudo abre uma draft. A sobrinha fica com vergonha de pedir um copo, sai discretamente, na lateral da casa, fuma um cigarro escondido, depois chupa uma bala para não suspeitarem do hálito, faz o sinal da cruz suplicando perdão pelos pensamentos impuros, pela inveja, pela masturbação.

O dia morre na baía, corta o tempo ao meio. No horizonte as nuvens se agregam também fazendo medida de procissão. São milhares de romeiros preenchidos por vapor d’água. Mantêm-se nuvens sem desabar, sobrevivem porque em dia santo calendário não faz chuva.

***

 

PFA

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