O Lutador

Ao ler as manchetes do jornal me deparei com mais uma dessas histórias que nos roubam longos períodos de reflexão, memória, elaboração – porque não há exercício mais prazeroso do instinto do que o de pensar sobre eventos imercantilizáveis e corriqueiros.

Deparei-me com a notícia da morte do boxeador Gil Carvalho, afogado nas águas do rio Guajará. Uma história espinhosa e cruel envolvendo glória, disputa, álcool, um treinador melancólico e angustiado. No topo da matéria havia uma fotografia talvez dos anos 80 que estampava toda a trama: Gil, ao lado de quatro homens, fita a lente erguendo a auspiciosa luva vermelha num aceno implacavelmente tímido para o invisível público. Lembrei-me de uma fala atribuída ao Julio Cortázar, bem curtinha, sobre a diferença entre o conto e o romance: “o romance se vence por pontos, o conto por nocaute”. É uma definição massa.

Voltei ao tempo em que havia um saco de pancadas pendurado na casa da minha avó, o pai treinava lá e eu às vezes brincava de ser lutadora. Outro dia assisti a um documentário sobre o Muhammad Ali, fiquei pensando que eu quero ser ele.

Novamente a foto. Surpresa. Eu conhecia o homem à esquerda do Gil Carvalho, era o seu Cordeiro, inspetor da escola onde estudei na adolescência dos anos 2000. Não havia dúvida alguma, reconheci pelo olhar denso sempre tão bonitamente sereno em contraponto à expressão grave e carrancuda em face de nossos desarranjos estudantis.

Uma vez o encontrei fazendo a segurança de uma top festa cafonalha de quinze anos. Nós nos vimos na porta da casa de eventos e rapidamente nos falamos. Eu perguntei como iam as coisas, se estava trabalhando, ele sorriu e disse que sim. Eu disse bom trabalho e fui entrando. Depois fui saindo e lá estava ainda, firme e forte. Tchau seu Cordeiro. Tchau. Na segunda-feira novamente ele na escola tentando nos devolver à sala de aula – e nós escalando pelas paredes feito umas lagartixas deslizantes e fugidias.

Matei um horário inteiro tentando escrever um versinho, o professor de física pegou e leu, eu dizia que nem todo cordeiro divino era branco de pelúcia, que havia os cordeiros negros de carne e osso e que seu Cordeiro era o cordeiro negro de um Deus também negro, sagrado e justo. O professor riu e disse que eu era maluca. Era nada. O seu Cordeiro nos cuidava e cuidava de nossos pecados com integridade, eu sabia. Na escola, na rua, nas festinhas idiotas, era como se estivesse em todos os lugares olhando por nós, mas não como aqueles anjos aparvalhados que me desorientavam em pesadelos, mas como um homem bom que labutava dignamente obrigado a cuidar do bem estar dos outros.

O seu Cordeiro, mais escuro que todos nós caboclos, filhos e netos da cruza de invasores com indígenas, carregava nos ombros a diáspora dos seus e o peso da africanidade que lhe fora historicamente usurpada ecoando ainda tão silenciosa na Amazônia.

Ao lançar meus olhos novamente sobre a fotografia no jornal vejo o boxe, as correntezas tenazes do rio que engole os corpos, vejo seu Cordeiro jovem e me pergunto onde estará. E me pergunto quais foram as narrativas que eu não ouvi (como eu as ouviria?), lançando-me a essa pequena inquietude, que é de todo escritor, de passar salpicando invenções nas aparentes lacunas da vida alheia. Obrigada, seu Cordeiro, e um abraço.

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Luedji

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O Liberal Jornal – 1.11.2017

Dançavas
Era quando o silêncio e o gesto se perpetuavam como uma rebelião pelo espaço. Ficávamos ali, público estupefato, impressionados com o desenho ágil dos teus contornos e a vontade escancarada que anunciavas na expressão do teu olhar. A vontade da arte, da síntese, da imagem.

A vontade de vencer o sono e a lucidez todos os dias.

Tem uma nesga de luz no entreaberto das tuas asas geminadas às minhas. Vês?

Eu não entendo, não quero. 
Quantas palavras ainda estão por vir?

E esse gole de cerveja quente rasgando e 
curando as carnes 
de mim.

E essa saudade. 
Esse coração de duas cidades.

Nunca perdoarei essa falta.

Nunca perdoarei Belém 
– não aquela onde Jesus nasceu –
A Outra.

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– 2009

 

Alegria

Veio uma meninazinha, meio indiazinha, quase natimorta e decidiram chamá-la Alegria nutridas por alguma esperança de que o nome lhe pudesse conceder forças para vingar-se viva. Houve que as contrações chegaram antes do tempo e no correcorre do hospital acabou que os médicos decidiram em junta militar despregá-la de dentro do útero através de um único puxão, extraindo de uma vez só sua cabeça e corpinho, tudo bem miúdo como se a Alegria  fosse um mal verdolengo que não passara da semente.

Para vê-la as mães precisavam ficar  a alguns palmos de distância da incubadora. Elas se davam as mãos e tentavam observar com coragem a primeira filha desbravando tentativas de  sobrevivência com aquele movimento de peito arfante, um coraçãozinho de colibri a cento e vinte mil batidas por segundo, os olhos cerrados ainda cegos de mundo, as mãos apertadas em caracóis de dedos e a pele oscilando entre os claros e escuros da irrigação sanguínea.

Proteínas, banhos de uma luz intensa e amarelada, o barulho frequente das máquinas de medir a vida, agudas, pontilhando os silêncios com sua cadência imprevisível e angustiante. Lá fora, os passeios no pátio eram perfurados pelo bafo quente dos dias de abril, e ainda assim parecia mais confortável estar para além das portas da enorme casa de arquitetura colonial onde funcionava a maternidade que cuspia diariamente, por todas as saídas e buracos, meninos e meninas, só não cuspia a Alegria que não melhorava e só partia. As duas mulheres se apoiavam uma no ombro da outra e choravam com muita calma, como se chorando pudessem examinar com cuidado aquele ferimento que trespassava a vida d’uma ponta a outra, rompendo as entranhas como um rio que se liberta da represa, uma torrente de dor às toneladas. 

Alegria resistiu durante cinco dias. No sexto anunciaram seu último respiro, um doutor com a barba bem feita e uns óculos de lentes grossas que lhe faziam parecer uma aranha. Mas foi como se Alegria houvesse conseguido assinar contrato com o lado de lá da morte de modo a deixar pelo lado de cá uma atmosfera luzente a contrastar com as sombras de outros tempos, os tempos da memória triste e dos temores – aqueles que se abrigavam, todos eles, à boca da noite.

As mulheres chegaram a pensar que aquele  desespero e  a sensação de castigo se davam pelo falatório nas esquinas de seu bairro, no seio da santa província do Grão, onde as pessoas teimavam em desaprovar o fato daquela pequena família ter duas mães, um bebê e nenhum pai. As línguas se enrabiolavam umas nas outras, transmitindo venenoso sumo que até parecia saciar a aridez dos medíocres. Diziam que aquilo não podia dar coisa boa, uma criança assim feita por duas mulheres, essas que eram cacho uma da outra porque provavelmente lhes havia faltado uma  pica de talento capaz de demovê-las dos instintos satânicos que as fazia sucumbir àquela espécie de inconcebível sentimento amoroso. Negativo. Isso não era de deus. Era afronta à biologia familiar, coisa antinatural que só se realiza por doença ou loucura.

Porque sim, sabe-se, para essas pessoas que cultivam pouquezas e vazios em pratos de fome, é melhor que a Alegria – mesmo que seja só uma alegriazinha simples, preciosa e indefesa, dessas que não fazem mal a ninguém – permaneça nessa condição: nascida sem início e com hora para acabar.

***

O Liberal – 25.10.2017

Os Anjos

Um conto para Nossa Senhora de Nazaré

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Chegou à escola de teatro a notícia de que procuravam meninos e meninas para compor o elenco de um filme que seria gravado no período do Círio cujo título, “Quero ser Anjo”, alimentava nossas fantasias todas – nós que éramos justamente meninos e meninas com o hábito de nos travestir em criaturas angelicais quando cansávamos de ser demônios de botar fogo nas cortinas.

Passamos a desejar ardentemente aquele destino magnífico de entidades milagreiras expostas nos trípticos como molduras gentis do amor da Santa, a nossa Nazarezinha, rainha da Amazônia. Seríamos seus escudeiros, seus e de seu mundaréu de gente que entope as ruas todo segundo domingo de outubro. Amém. E, caralho, era cinema! A idéia de virar artista na tela grande deixava delirantes nossas vaidades infantis de modo que todas as mães se viram obrigadas a nos levar ao tal teste de elenco.

– Dá um sorriso, vira o corpo todo pra esquerda, agora olha pra frente, isso, agora vira pra direita, o corpo todo, isso e… foi. Obrigado, a gente entra em contato! –

Na sala onde éramos examinados constavam nas paredes fotografias da Bárbara, nossa colega de grupo, que já havia sido selecionada para fazer a protagonista. A nós restaram então as coadjuvâncias ou uma cova nos latifúndios da figuração.

Lucas, Mariana, João e Thayná pegaram um papel, os outros não. Eu imediatamente demonstrei a frustração numa birra, minha irmã por sua vez expôs seu coração magoado com requintada crueldade em uma de nossas brincadeiras na escola.

Começamos a improvisar uma cena exatamente igual àquela que tínhamos vivido na seleção de elenco. Luana, que era a mais velha do grupo, fez-se diretora escolhendo entre nós quais seriam as crianças que participariam do nosso filme de mentira. Após realizarmos todo o ritual de vira, desvira, para a esquerda, para a direita, ela sentenciou apontando para três ou quatro de nós: vocês serão os principais do filme. Depois, quebrou o pescoço em direção a Bárbara e desferiu: você, Bárbara, vai ser aquele anjinho torto que fica lá no fundo da cena e que ninguém enxerga.

Pra quê, meu deus?

Foi que a Bárbara saiu chorando e nós todos ficamos em dúvida se caíamos no riso ou se deveríamos ir atrás dela, agora improvisando alguma solidariedade. Luana se manteve na personagem da diretora, como se toda aquela situação e nossas reações seguissem um roteiro prévio que só ela conhecia. Esse foi um daqueles momentos em que a ficção se empapou na realidade e ficamos adultamente confusos sem saber desatar o problema.

Imagino que a Aninha tenha sido aquela que tomou coragem e foi atrás de Bárbara, nós aguardamos no mesmo lugar, esperançosos de que ainda estivéssemos no teatro, embora intimamente sentíssemos que Luana desenhara um plano secreto de vingança para ser executado através de nossa peça. Bárbara era a única que poderia tirar a prova dos nove. Quando voltaram as duas ela sorria, disse que o choro tinha sido de mentirinha. Ficamos ainda mais perdidos. Luana não sabia se aquilo era bom ou ruim. Até hoje, passados 18 anos, paira no ar a questão e agora já não tenho mais certeza, mas Nossa Senhora sabe, e ela tem conhecimento do que aconteceu, e ela está de olho em nós, carregando Jesus Cristo com uma das mãos e na outra, dá pra ver, tem uma chinela só esperando pra voar na nossa bunda.  

***

Gente

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De vez em quando eu e minha irmã fazemos dessas: quebramos o silêncio e tecemos rápidas conversas por telefone um tanto reveladoras.

Da última vez ela disse: estamos melhores agora, P.

Eu perguntei: como irmãs ou de um ponto de vista mais geral?

Como irmãs e separadas, como gente. Respondeu.

Eu e L. temos quase a mesma idade, apenas um ano e meio nos aparta. A imagem que para mim ilustra com precisão nossa irmandade é a das duas em um ônibus no final da tarde em Belém, sentadas lado a lado, chorando curtinho, doído e pra dentro: nosso pai estava internado em uma clínica psiquiátrica e nós voltávamos de uma dilacerante visita. Éramos adolescentes, eu tinha 16 anos e ela quase 18. O balanço do ônibus dava a impressão de que viajávamos em uma montanha-russa. Seguramos as duas no suporte do assento da frente como que numa tentativa de agarrar firme a própria vida, implorando silenciosas para que aqueles rasgos,  sendas e rachaduras nos devorassem com algum mínimo cuidado e delicadeza, porque já estávamos exauridas de tanto apanhar, nossos corpos passavam por um insustentável esgotamento físico e mental.

Com algumas amigas vi se formar esse vínculo de nó invisível que faz com que possamos nos acolher mesmo quando faltam palavras. Da última vez que fui ver o rio passei por essa sensação. Éramos seis mulheres e uma cria atravessando para o lado de lá da ilha, rindo mesmo por entre tristezas, num barquinho popopô.

Disse uma vez a Clarissa Pinkola Estés: a risada é uma das mais profundas expressões da sexualidade feminina. É irreversível quando mostramos os dentes mesmo se a dor por dentro insistentemente arranha e apedreja.

Decidimos ficar em um restaurante à beira d’água, pedimos um tambaqui na brasa, sucos de cupuaçu. Eu, Fernanda e Flávia tomamos uma cerveja. Clarisse deita na rede pendurada em um par de açaizeiros e tira um cochilo, ficamos de olho no filhote dela – o pequeno por entre o verde das árvores e do mato alterna sumiço e surgimento bravamente. Dimítria foi dar um mergulho mas logo volta para o almoço. Nos fartamos de peixe. Cuidado com as espinhas, diz a Maria. Segundos depois Flávia confessa que está há dez minutos engasgada sem, no entanto, entrar em desespero. Falamos em coro: come um pouco de farinha! Flávia viu na internet que não faz bem comer farinha para tirar espinha da garganta. Clarisse questiona: tu preferes confiar no Google ou confiar na gente? Flávia escolhe a gente.

Levantamos e seguimos para nos banhar naquelas águas lodosas, barrentas e de mistério infinito. Um caranguejo belisca o pé da Clarisse, quase me afogo de tanto gargalhar. Eu, Maria e Fernanda sentimos um temor místico ao mergulharmos. Dimítria, sereia, lembra de pegar o troco da conta depois de já estarmos embarcadas para voltar. Tiramos uma foto um pouco antes do cair da noite – todas fazendo pose, meio cafonas, meio belíssimas. Felizes. Felizes apesar de todos os problemas suportados com graça e coragem. Uma ao lado da outra, ni una menos, agarrando firme a vida, como fôssemos eu e L. naquele ônibus, rasgando o ventre do rio em viagem de montanha-russa, chorando pelos pais, pelos amores, pelas ausências, pelas dúvidas, pelas alegrias. Cada qual com sua espinha enterrada na garganta. Irmãs e gente. Estamos melhores agora. Não esqueçamos disso.

 

***

O Liberal  – 18.10.2017      

fiz um poema armado
não é para mexer
quebrar o vidro em caso de emergência
mas não distraias o motorista
poemas armados não fazem nada além de empunhar
assombros
barulhos aterrorizantes por entre a mata fechada,
o quarto fechado, o enterro da ave,
jacarés sem olhos,
não é para mexer

por outro lado,
ainda anteontem,
fiz um poema atlântico
se quiseres
não me deves nada.

– 10.10.2017

Resenha crítica do livro|Por Evanilton Gonçalves|OperaMundi e Painel Acadêmico

‘Eu preferia ter perdido um olho’, uma chave que abre a couraça de nosso tempo

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito; autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. 

Antes de abrir Eu preferia ter perdido um olho (Alameda, 2017), primeiro livro de Paloma Franca Amorim, multiartista paraense que reside em São Paulo, me encontro julgando o livro pela capa: uma cabeça de jacaré com a boca aberta e olhar intransigente encontra-se fixada ao Norte do livro, que, por sua vez, em seu formato, me lembra um rio. Mais embaixo, preenchendo a brancura do fundo: o título, o nome da autora e da editora, tudo ali, agrupado no que julgo ser o Sudeste da obra. Está formada a geografia.


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O livro reúne 52 textos que Paloma publicou ao longo dos anos no jornal paraense O Liberal. É até difícil acreditar que esses textos circulassem no jornal, porque sua densidade e uma maior liberdade de estilo me parecem incomuns nesse meio.

Logo percebi algo interessante: as narrativas quebram o protocolo de leitura esperado para um livro que é fruto da reunião de textos antes publicado em jornal. É intensa a abordagem analítica sobre variados temas: inocência, crueldade, descobertas, maturidade, incidentes da vida, deus, morte e amor. Embora capture muitos fatos do cotidiano e do noticiário, a autora os transforma com a sua “régua do fantástico”, de modo que pouco importa se o gênero é crônica ou conto, ela investe em narrativas recheadas de imagens poéticas. É possível ler trechos como esse: “E eu fiquei por aqui a desenhar navios de guerra em meu peito”.

Consciente de seus mergulhos, os textos carregam novos sentidos a cada leitura como se a autora convocasse o leitor a partilhar do princípio de Heráclito. Trata-se de alguém que manipula a palavra com habilidade pelas correntezas de nosso tempo. A voz em primeira pessoa atravessa o corpo e entranhas da autora para se lançar ao mundo: “Vou falar de minha parte porque a minha parte, segundo eu, é a minha verdade e só dela eu sei e posso falar”. Na apresentação e no prefácio, a escritora é comparada à Clarice Lispector, mas vi em seus textos um diálogo muito mais forte com a obra da norte-americana Lydia Davis, justamente pela estranheza peculiar como aborda a vida.

Reprodução

Em alguns momentos do livro, surgem páginas com micropoemas, em fundo preto, com ilustrações de um dupla de peixes que ora se encontram, muito íntimos, ora parecem seguir em fluxos divergentes — completos desconhecidos. Aqui me parece residir uma observação entre parênteses: a fugacidade do afeto, a incerteza e insegurança do nosso tempo, ou o que Bauman chama de “modernidade líquida”.

Professora de teatro formada pela USP, integrante do grupo de samba Sambadas e do coletivo de arte e cultura feminista, com o incrível nome: Vulva da Vovó, Paloma usa a palavra de forma interseccional e o resultado, diferente do que se poderia imaginar — um atrito ligeiro e panfletário, pelo contrário, dá lugar a uma literatura potente e inventiva, visual e sonora, divertida e feroz como a vida.

A autora não se furta de tecer críticas contundentes contra o moralismo e a hipocrisia brasileira. No emblemático texto intitulado Artifícios de um Maurício civilizado, a narradora diz: “As mangueiras abraçaram o crime com folhagem cheia, a copa das árvores obstruiu a visão de deus, que não pôde julgar o acontecido”.

Gosto quando o livro me transporta para outras paragens ao passo que delineia as minúcias ordinárias do cotidiano provocando estranhamento. E o livro de Paloma tem essa formidável façanha. Ao tematizar as questões de gênero e de classe, por exemplo, a autora me fez pensar na aclamada série The Handmaid’s Tale, criada com base no romance homônimo (No Brasil publicado com o título O conto da aia), da Margaret Atwood, primeiro, porque na série, num dos primeiros episódios, um trecho bíblico surge para dar razão a brutal violência que uma personagem sofre ao ter um olho arrancado, lhe proporcionando redenção divina: “se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. Mateus 5:29”; segundo, porque, tanto no livro de Paloma quanto na série, existe uma tomada de consciência feminina que busca dar um curto-circuito no status quo. A série distópica encarna um regime totalitário e teocrático, no qual as mulheres são vistas como propriedade do Estado, o que nos remete à essa assustadora guinada do conservadorismo em nosso País, que já é racista e misógino por excelência.

“Eu ando justamente daquele modo que uma moça de bem não deveria andar. Não há culpa.”, diz uma voz no texto Leal. Portanto, impossível ignorar a questão de gênero: é um livro escrito por uma mulher – reconhecendo-se aqui as variações de caráter e de comportamento que o uso desse rótulo implica –, uma das quais se fez presente na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty 2017, através da Flip Zona, convidada para a mesa Páginas Anônimas – a literatura que o Brasil faz e você desconhece.

O que temos aqui é uma jovem escritora destemida, que, pelas frestas, explora, de maneira concisa e irônica, os absurdos do nosso tempo: “Que possas me livrar das aspas – pelo amor de deus: aspas apenas pelo respeito da citação e não para domesticar mitos ou maquiar a barbárie”.

Recheada por referências que passeiam pelo universo das artes, a narrativa valoriza a ambivalência humana, nela cabem a sonoridade de Elza Soares, Wilson das Neves, Duke Ellington, John Coltrane e também de Chet Baker; também cabem o poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos, a poeta Gertrude Stein, a ficcionista Carson McCullers, o dramaturgo Tennessee Williams, a filósofa Simone de Beauvoir, além de trechos fantásticos como esse, que afirmam sua interlocução literária: “É a estirpe dos Buendía, por completo, na contradição de tentar salvar a própria pele individualmente sem perceber que uma pele não se salva sem a outra.”

A voz filosófica e melancólica presente no livro embala a aflição que vejo como ponto de encontro da literatura contemporânea: “Porque antes de chegares com tuas certezas eu já me lançava por inteiro nesses mistérios medíocres que viram poemas grandiosos de gente branda. Gente escassa. Gente pouca. Gente grávida de vazio. Gente que cuida da vida dos outros como se a vida dos outros fosse um bolo assando no forno.”

Acredito que o texto O manto do rinoceronte sintetiza bem o espírito desse primeiro livro de Paloma. Nele, é possível ler: “Minha avó parecia um rinoceronte bem como tantas pessoas cheias de couraça por aí que permitiram o nascimento de um chifre de marfim entre as ventas, como se um chifre de marfim as pudesse proteger desses rodamoinhos em que tropeçamos depois que a vida nos traga pra dentro dos próprios pulmões.”

Acho importante pontuar a surpresa do jornalista e editor Haroldo Ceravolo Sereza na orelha do livro. Eu não sabia, mas ao final da leitura iria concordar com ele, afinal, me senti diante: “[…] de uma nascente que marcará […] a paisagem literária dos anos seguintes”.

A minha conclusão é de que “Eu preferia ter perdido um olho” é um livro corajoso que funciona como uma chave que abre a couraça de nosso tempo.

***

*Evanilton Gonçalves é soteropolitano. Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e Mestre em Língua e Cultua na mesma instituição. Autor de Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017).

Procissão

corda

Os meninos acordam às quatro para formar o batalhão do carro dos desejos. Levantam-se preguiçosos mas excitados, fazem o asseio, vestem a farda escolar e se alimentam de pão com manteiga e café com leite preparados por uma sonolenta mãe que sente entre bocejos um orgulho por mandar as crias para o meio da multidão. Do lado de fora da porta há um cartaz com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Na entrada do vizinho também há, do lado esquerdo, do lado direito, até a numeração mais escassa do final da vila.

Mais para a metade da manhã já se pode sentir aquele alastrar-se do cheiro de comida – maniçoba, vatapá, pato no tucupi, arroz de jambu, doce de cupuaçu. Inúmeros e inomináveis aromas se vão multiplicando pelo ar, embriagando a gana de toda gente que, embora faminta, só vai se sentar para o banquete depois que a santa chegar ao seu destino final, atravessando pela barriga da serpente de asfalto o caminho que separa uma igreja da outra, a Sé da Basílica, lentamente e com paciência em sua berlinda de ouro, toda enfeitada de flores, velada por seus filhos, seus seguidores, seus promesseiros.

Orações guiam a marcação do compasso, homens antigos com mantos e terços pendurados são os escolhidos para conduzir o cronograma da passeata. Outros, sem sapatos, carregam com os braços erguidos, acima de suas cabeças, tijolos, barquinhos de miriti, miniaturas de uma morada, num jogo metonímico e orgânico secular em que os objetos aparentemente sem nenhuma relação se transformam em representações de pedidos, necessidades a serem atendidas por meio de uma benção, uma graça.

Enquanto isso os poderosos observam tudo de cima, na varanda de Fofó de Belém  onde se diluem em gloriosa massa de convidados, figuras distintas oriundas dos celeiros sudestinos. Todos brindam com taças demi preenchidas com espumante – de cuja qualidade se duvida – o testemunho da fé alheia, o circo grotesco e digno de prêmios internacionais de fotografia do povo exausto castigado em sede que mesmo exausto e castigado em sede continua caminhando, caminhando, caminhando – como se caminhar fosse nesse naco de mundo o único jeito de estar vivo.

As cores pulsam nas fitinhas vendidas em paus de miriti, os moleques apanham carteiras, todos se eriçam quando o movimento dos milhares de corpos começa a anunciar  a aproximação da corda, o dragão de duas cabeças que ziguezagueante faz varredura no espaço tragando tudo e todos para dentro de si. Porque violento, indestrutível e miseravelmente contornado por belezas, é o único fio umbilical possível entre a Mãe da Amazônia e sua prole.

O almoço é farto. Como estivessem em um rito medieval as pessoas só se levantam da mesa quando já não podem mais respirar porque o estômago alargado subtraiu o território dos pulmões. Um tio barrigudo abre uma draft. A sobrinha fica com vergonha de pedir um copo, sai discretamente, na lateral da casa, fuma um cigarro escondido, depois chupa uma bala para não suspeitarem do hálito, faz o sinal da cruz suplicando perdão pelos pensamentos impuros, pela inveja, pela masturbação.

O dia morre na baía, corta o tempo ao meio. No horizonte as nuvens se agregam também fazendo medida de procissão. São milhares de romeiros preenchidos por vapor d’água. Mantêm-se nuvens sem desabar, sobrevivem porque em dia santo calendário não faz chuva.

***

 

PFA

meu canto 
de escrever ladainhas
ou
uma caverna
vai se moldando sob os olhos 
de minha avó
donatília franca
que vivia numa roça
hoje vive num retrato
só me olha
e me diz
menina,
só te olho
– Outubro de 2017