Uma Luminária Pensa no Céu

No livro “Calibã e a Bruxa”, recentemente traduzido para o português pelo Coletivo Sycorax, a escritora ítalo-americana Silvia Federici faz um estudo pormenorizado sobre a relação entre o genocídio de mulheres na baixa Idade Média e o surgimento do capitalismo. A eliminação de milhares de bruxas no começo da Era Moderna, para a autora, é uma pista que revela a íntima conexão entre a ascensão do sistema capitalista e a institucionalização do patriarcado e, por consequência, da prática feminicida que atravessa gerações e recai até hoje sobre os corpos atrelados à sociabilização feminina. 

Ao ler a plaquete “Uma Luminária Pensa no Céu” de Mayara La-Rocque, a ser lançada hoje às 18h30 da tarde, na Casa da Linguagem (Avenida Nazaré, 31), imediatamente me lembrei da pesquisa de Federici, talvez por uma dessas livres associações que faz a intuição quando nos deparamos com um material de potência expansiva que nos leva para além dele mesmo, fazendo-nos recorrer a outros suportes para, como leitores, preenchermos suas lacunas poéticas e especulativas. Mayara, poeta e contista/cronista, mistura os gêneros e, ao recusar a categorização tradicional do discurso literário, chega a pontos essenciais que revelam aquele parentesco de sangue – hoje escondido e esquecido – que constitui a irmandade entre a prosa e a poesia.

Os contos da plaquete, curtos e assertivos quase como orações (pagãs, evidentemente), trazem uma visão bruxulesca da realidade a partir da qual o natural é criatura vivente e autônoma tanto quanto a própria autora. Da natureza Mayara extrai seus preparados diários para confrontar-se com as operações instáveis da memória – essa que tanto me encanta e que é, mais uma vez e comprovadamente, passível de compartilhamento.

Embrenhando-se pela experimentação literária como um fazer alquímico, Mayara realiza investigações laboratoriais com as paisagens diante de si: rios, folhas, corredores de casas antigas. Ela preenche garrafas e mais garrafas vazias com esses grãos de areia, grãos de passado e de sensações, compondo um mosaico, quadro espraiado em fragmentos vibrantes, ora solares, ora soturnos.

Os poemas de “Uma Luminária Pensa no Céu” desenham caminhos que serpenteiam por entre os vãos da imagem, da natureza e da lembrança. Em “Paternidade”, que tanto me atravessou, Mayara nos conta:

“Dos infindos mistérios/ Que me rondam/ E nem sequer/ Alcanço/ Vago sob a transcendência/ De meu pai/O fumo que entremeia/Os cômodos da casa/A música estridente/Que invade/Toda a casa/Os acordes múltiplos/De silêncio/E um abismo/Entre nós.” 

(Bonito, não? Gosto quando o azul de fim de tarde vem assim com justeza.)

Imagino que a ligação entre os escritos de Mayara La-Rocque e os de Silvia Federici se dêem nessa fina camada que separa na linguagem literária o lírico do político. O texto de Mayara se anuncia como uma motivação simbólica de resistência feminina, amazônida, e por isso mesmo humana (é importante fazer essa afirmação posto que ainda somos desumanizados, mulheres e nortistas, para nós mesmos e para “os outros”). Além do mais, é pura água para uma sede de além-materialidade, essa sede que nos faz buscar no epicentro do poema ferramentas que nos façam alargar a compreensão sobre os horizontes que a vida, dialeticamente, oferece e arranca de nós a seu bel prazer.

***

O Liberal Jornal – 27.09.2017

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