Tarde de Travessia

Todas as vezes que atravesso o rio Guamá para ir à ilha do Combu não sinto nem alegria, nem tristeza, e sim equilíbrio, um respiro profundo do espírito, uma calmaria. Acho que foi bom deixar Belém com essa imagem na cabeça, a da travessia. A do rio que me enreda, que enreda a todos nós, sujeitos amazônicos, sejamos da capital ou dos interiores – não adianta fugir, é como se o rio fosse a própria vida que carregamos por dentro, com seus sumidouros e afluentes, suas gargantas caudalosas, a atividade misteriosa que não se pode ver devido às águas escuras, barrentas, impactantes aos olhos de qualquer mergulhador desavisado.

Dimítria me disse que não se entra no rio às seis da tarde, e faltavam apenas dez minutos para as seis. É a hora das encantarias – melhor não arriscar! – entramos rapidinho, em seguida tiramos uma foto para registrar o encontro. Não queríamos desrespeitar os encantados e nem perder a oportunidade de olhar de longe a dança das águas e o final de tarde se enterrando no horizonte, vermelhedante, como um coração que se vai enterrando em si na cadência das horas.

Quantas vezes fui feliz nessas tardes quentes? Eu me havia esquecido, mas fui feliz sim. De verdade. E fui feliz essa semana que começou um pouco angustiada e terminou plena, no Cozinha de Bistrô, com o lançamento do meu livro “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho”. Foi uma noite linda, cheia de encontros intensos, partilhas reais.

Conversei com a Rita, dona do Bistrô junto com a Clarisse, e agradeci a dedicação empenhada no evento. Rita me falou ter feito de tudo para que as coisas corressem bem, porque o lançamento era muito importante. Fiquei emocionada pelo carinho. Clarisse depois me confessou ter sentido uma forte energia até mesmo das pessoas ausentes – minha mãe e a Maria Lúcia Medeiros a quem dedico o livro. Foi um momento de reverência e evocação.

Fiquei surpresa, entretanto, com a reação moralista e até mesmo aterrorizada de algumas pessoas diante do título do meu livro e o tema da violência sexual que ele aborda (dentre tantas outras temáticas, afinal eu sou escritora e não especialista em teoria de gênero). Imagino que esperavam que eu escrevesse um livro sobre a lindeza da baía do Guajará, gostariam talvez que eu escrevesse um livro sobre belezas cafonas, sobre o Mangal das Garças.

Escrever sobre a cultura do estupro, sobre as violências que eu mesma vivi, é uma maneira de me salvar e buscar a interlocução de outras mulheres, manas, pessoas, que passaram por experiências semelhantes. Eu não faço mal a ninguém ao tocar nesse assunto, e não exijo admiração, apenas exijo que respeitem o meu direito político (e o de todas as mulheres) ao corpo, à subjetividade e à investigação da linguagem literária sem descompassos de gênero.

Escrever sobre as violências que eu vivi é para mim o mesmo que dobrar os joelhos e olhar nos olhos daquela garotinha de seis anos que fui e dizer: eu lamento muito por tudo, você não é louca.

Assim, recusando-me a fechar as vistas para a sua dor, ao contrário do que todos fizeram, nos reconciliamos – eu e ela – e passamos a perceber a vida como um rio, essa tarde de travessias. Eu carrego minha menina no colo e às vezes é ela quem me embala, juntas somos mais fortes e por isso nos tornamos capazes finalmente de partir de Belém pra sempre e em paz.

***

O Liberal Jornal  – 20.09.2017

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