NA QUITANDA

Na quitanda ao lado de casa trabalha um rapaz congolês com o qual eu costumo trocar sorrisos. Hoje, justo hoje que estava danadamente precisada, um outro rapaz cruzou meu caminho, meteu-se na frente e tomou a primeira posição na fila de modo que eu fui endereçada para um segundo atendente de caixa que não tem dentes tão charmosos. Fiquei chateadíssima mas não deixei transparecer. O rapaz fura-fila, além de tudo, recusou-se a ficar calado, fez questão de ampliar a voz na loja toda para elogiar as frutas orgânicas e demonstrar o quanto estava preocupado com o meio-ambiente revelando a sacola reutilizável guardada sob o sovaco. Também empenhou esforço olímpico para garantir ao meu congolês que não era racista elogiando a resistência de sua pele nesses tempos calorentos de inverno brasiliano do avesso. Depois comentou que pagaria a mais pelos ovos caipiras, para garantir a estabilização dos níveis saudáveis do seu colesterol. Olhou pra mim, para minha compras (mal humoradas todas nós, palomas, verduras e sementes) e deu bom dia, eu acho que respondi bom dia também. Ou balbuciei qualquer coisa do gênero porque nesse exato momento eu estava em outros territórios da cognição, a pensar com meus miolos onde raios estão vendendo essas cartilhas do bom comportamento almofadinha paulistano para que eu possa estudar estrategicamente como botar fogo em todas elas.

 
 
 

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