Fascismo

A gente sabia que por debaixo do manto da santa tinha uma moça como éramos todas: calcinha, regras, pernas peludas ou raspadas, um par de peitos meio imensos meio pequeninos demais e uma lambuza de gotejamento nos horários mais inoportunos, o desejo molhado fugaz e clandestino que se anunciava na fila do caixa da mercearia, no banco da escola ou numa sessão de cinema em que o mocinho dominava o bandido com um mata-leão e em seguida olhava para a câmera com as sobrancelhas semiarqueadas e ares notívagos. Ficávamos em polvorosa, mas sem dizer nada. Julico andava conosco e se dava a fazer coisas que nós meninas, quase mulheres, fazíamos por hábito ou lição. Penteava durante longos minutos os cabelos crespos moldando os cachinhos meticulosamente e pintava as unhas com uma camada de base invisível para não chamar a atenção, mas nós sabíamos secretamente que Julico queria mesmo era usar a cor vermelha das doidas da zona ou aquele tom de café que fazia os dedos da professora de literatura ficarem charmosos feito foguetes. Quando a professora pegava a edição do “Amor de Perdição” do Camilo Castelo Branco, que ela mesma dizia odiar, era como se suas mãos conferissem um certo charme moderno àquelas imagens e letras pomposas que precisávamos dissecar matematicamente para realizar com louvor os exames vestibulares. Eu queria fazer medicina e o Julico sonhava em partir daquela província de merda para estudar moda em Londres junto a outras bichas maravilhosas cujos nomes impronunciavelmente anglo-saxões eram ditos por ele com destreza e propriedade. Quando a professora apanhou do namorado não houve como esconder. Ela surgiu com os olhos protegidos por enormes óculos escuros e inventou uma história esquisita de que havia sido atingida por uma caixa de ferro que desabara da estante de livros, mas a Fátima que não passava de um diabo de fofoqueira, sabia a verdadeira trama porque era prima de segundo grau da professora e ouvira a mãe ao telefone  narrando toda a história. O namorado encheu a professora de porrada porque ficou sabendo que ela havia se engraçado para os lados de uma sapatão que cantava no Café Imaginário e, coitado, ele não merecia aquilo, levar chifre de homem tudo bem, mas de mulher era complicado demais, feria de deixar os brios em carne viva. Eu e Julico rimos da história até que a professora tirou os óculos e a gente viu o tamanho do machucado. Não sei, me bateu num lugar que eu não consigo explicar. Depois a gente riu de novo. Quando o Julico apanhou eu ri de nervoso. Uns rapazes seguiram ele depois do cursinho e o encurralaram em uma rua estreita do centro, só depois de algum tempo eu entendi que não podia rir porque o Julico estava morto e eu em luto pelo meu amigo. Mas quando minha mãe perguntou se eu era sapatão por andar com ele, eu neguei até o fim e para provar não fui a enterro nenhum, a velório nenhum, a missa nenhuma e rasguei todos os bilhetinhos que trocamos ao longo dos cinco anos em que estudamos juntos, foi como se eu passasse uma borracha em todos os meus pecados e por divina providência tivesse a oportunidade de começar tudo de novo, me dedicar à medicina, andar com umas pessoas novas mais normais e a gente tem feito uns programas muito legais, eu me sinto bem, feliz e grata por tudo que deus me concedeu até agora, é muito legal.

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O Liberal Jornal – 23.08.2017

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