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admiro pessoas como meu pai que apesar de todo susto por ter perdido o celular no banco do ônibus, o alcatrão, a dipirona, a dívida no banco que só vai se extinguir dentro de aproximadamente doze meses, o cansaço físico, o susto com o gato preto, o barulho da construção na Santa Casa, a crise do petróleo, quarenta anos de psiquiatria na cabeça, tortura psicológica, perseguição política, a rinite alérgica, unha encravada, sobrancelhas que não param de crescer e que parecem as de Monteiro Lobato, pelos exacerbados nas fossas nasais, internações compulsórias, uma filha sapatão, olhos gordurosos, tendência a diabetes, a velhice estampada nas rugas – certidão da inenarrável beleza que o tempo vinca no rosto -, os sinais pretinhos que crescem aleatoriamente em suas costas, a esquizofrenia, a morte, o medo, a polícia matando gente, a cisma da esquerda no país, a optometria não realizada, a sensação da língua passando na gengiva nua naquela parte da boca onde lhe arrancaram os dentes, o amargo da impregnação da lamotrigina, a linha da vida arrebentada, a sutura mal feita, a dor
ainda assim são capazes de dizer:
minha filha,
que céu bonito.

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