Ouro Preto

op
Quando chegamos na porta da Red Bull Station lá no Terminal Bandeira, fomos recebidas por um porteiro muito animado que de imediato me animou também quando perguntou se éramos nós as moças que iam mandar um pagode no espaço. Maria falou que sim e ele sorriu mas logo em seguida disse que não poderia ficar para ouvir porque sairia às dez e meia e que preto quando gruda num pagode não consegue mais largar, aí não teria como pegar a condução para chegar em casa. Nós lamentamos e rimos juntos, eu e Maria agradecemos as boas-vindas e adentramos aquele palácio do empreendimento jovem e hipsterizado onde todos os sonhos são, a priori, realidade. Nesse momento, a paisagem mudou e eu pude sentir o impacto social, posto que tenho essa personalidade crítica insustentavelmente chata, da ausência de outros negros no salão. Todos que nos receberam depois daquele primeiro contato com o porteiro eram pessoas brancas, muito magras, muito lindas, muito bem sucedidas, que jogavam bilhar e pebolim ao mesmo tempo em que se comunicavam por micro walkie talkies de ouvido com outros produtores do espaço. E eu só conseguia pensar: mas que história é essa da Red Bull que eu nunca tinha ouvido falar?
 
Aí fomos passar o som e aquela beleza rara de estrutura técnica totalmente aparamentada, da melhor qualidade, microfones Shure em todas as vozes, microfoninho pro meu pobre clarinete que sempre ressoa sem amplificação nas rodas do Largo da Batata, toda uma recepção calorosa, comidinhas, bebidas fumegantes de todas as cores com canudinhos comestíveis de macarrão e cerveja Heineken no copo, não na garrafa, para que ninguém acusasse o espaço Red Bull de estar fazendo propaganda de outras marcas.
 
Aquele tratamento VIP me conquistou aos poucos, porque essa é justamente a idéia do tratamento VIP. Em pouco tempo eu já estava comparando a estrutura do lugar com o Tendal da Lapa onde tocamos na noite anterior, com os microfones todos falhando, um zumbido nas caixas de som, e aquela sensação de abandono do espaço que perdura em todas as gestões da prefeitura de SP. Mas como tenho uma fadinha diaba da realidade que me morde a orelha toda vez que eu me deixo levar pelo fetiche, eu me lembrei das ilustres presenças no Tendal que fazem os eventos populares valerem à pena: Maria Helena, embaixatriz do samba de São Paulo, seu Carlão do Peruche, único dos cinco cardeais do samba de São Paulo ainda vivo, as cantoras e compositoras Sahra Brandão, Maíra da Rosa… A Verônica Borges, percussionista, além de outras pessoas maravilhosas que na simplicidade vão levando os significados do samba adiante, na medida do possível.
 
Mas não senti falta dos microfones falhando. Isso não. Pensei mais era que eu queria que a gente tivesse bons equipamentos em todos os espaços onde tocamos.
 
Cinco minutos para iniciarmos a roda. As pessoas começam a descer, de repente há mais negros. Ufa. Cancela o conceito prévio, aqui pode ser um espaço de diversidade mesmo e você só está sendo tomada por aquela típica indisposição das criaturas regidas pelo signo de Saturno. Mas não. Não me aquietei. Tem alguma coisa errada aqui, disse a fadinha diaba no meu ouvido. Bebi mais uma Heineken no copo. Comi uns salgadinhos. Perguntei a um dos técnicos como era trabalhar no lugar, ele só elogiou. Disse que tem altas programações legais, com convidados especiais, que os ingressos são distribuídos e acabam em três minutos. E eu disse, mas se é público como é possível que eu nunca tenha ouvido falar? Então ele matou a charada: é que a programação rola em listas mais internas, mas se você curtir a página da Red Bull vai ter acesso. É pra um público mais diferenciado, sabe?
 
Entendi. Entendi tudo, Sr. Pós-Capitalismo! – Pensei olhando para os céus, para o Olimpo, onde vive o Sr. Pós-Capitalismo a comer frutas do pé sem agrotóxicos, mandioqueijo e maniçoba vegana. O Sr. Pós-Capitalismo largou tudo que tinha para viver mochilando por aí. E abriu um canal no youtube onde ensina receitas culinárias que não levam ovo. E é adepto do poliamor, diz que a empregada é quase uma segunda avó e posta selfies artísticas no Instagram com patrocínio da Taeq. Ele tem 24 anos e já gravou cinco discos de sucesso. Foi garçom em Paris e por isso sabe o que é pegar duro no batente. Ele costuma afirmar que somos todos humanos, independente de raça, credo ou visão política. Somos todos iguais, mas só até o limite em que a singularidade dele precisa sobrepujar todas as outras, afinal, vivemos uma democracia onde deve vigorar a liberdade de expressão, o direito de ir e vir, a guerra contra a corrupção – em suas dimensões ampliadas e microcósmicas como, por exemplo, furar fila ou falsificar meia entrada de cinema. Tudo isso catalizado pelo efeito cocainal que te concede asas de drinks Red Bull desses que dão palpitação cardíaca e fulminam 0,1% de seus usuários, mas é tão irrisório que não conta.
 
0,1% só conta quando interessa. Por exemplo: quando 0,1% da população negra faz um linchamento virtual contra uma fala explicitamente elitista de uma professora branca sobre seus novos alunos periféricos. Aí conta. Aí é pura intolerância. Aí o mundo vai acabar. Aí é cultura do ódio e esses pretos vão fazer o Bolsonaro virar presidente em 2018.
 
Enfim. Mais uma Heineken pra desarder a Canelinha. Primeira parte da roda muito boa. Senti que a gente tava integrada, se entendendo. Intervalo para um xixi e cigarrinho. Fui pedir um para alguém lá fora. Queria um desses industriais mesmo, mas tudo que consegui foi um de palha que custa dois dólares cada no estrangeiro. Esse não maltrata o ambiente e seu impacto nos pulmões é ínfimo. 0,1% de bronquite, asma ou efizema. Fumei. Cavalo dado não se olha os dentes.
 
Voltamos para a segunda parte, mais uma Heinekenzinha para ampliar a sensibilidade. Foi legal. Gostei muito do som. As pessoas gostaram. Tiraram fotos da gente, barganhamos curtidas em nossa página de facebook em troca de duas saideiras. A última música não dá pra ser Maria de Vila Matilde, do Douglas Germano, conhecida pela voz da Elza, porque não tem nada a ver com esse contexto. Muito combativa… Canta uma pra cimex do Guineto e fica tudo em paz. Mais uma Heineken. Eu tava doida já. Agradecemos os aplausos calorosos. A fadinha diaba me mordeu a orelha. Cruzei as fronteiras novamente do terreno ébrio para o crítico, caí para o lado da parceira do violão e com a língua enrolada falei:
 
~ Eu achei tudo bonito mas não me convenço de que isso aqui é diferente de Ouro Preto…
 
A Carol pergunta rindo da minha bebedeira: que Ouro Preto, Paloma?
 
Ouro Preto
 
porra ~
 
um lugar lindo,
 
~ cheio de maravilhas, riquezas mil ~
 
mas assentado inteiramente
 
~ sobre ~ sangue
 
de escravo…
 
Ouro Preto,
 
~ ué. ~
 
***
PFA

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