Em Paraty

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Voltei ao apartamento e acendi as luzes como se acende a luz de um devaneio que se deve encerrar para que a realidade possa voltar a funcionar, em ebulição com sua casa das caldeiras, seus engenhos subterrâneos, com toda sorte de maquinaria e combustível responsável por fazê-la trabalhar. Assim foi o final de minha experiência em Paraty, na Festa Literária Internacional, a 15ª FLIP, da qual participei como convidada por ser uma jovem escritora, apesar de meus 30 anos, a produzir uma literatura ainda desconhecida para o público brasileiro. Estar em Paraty pareceu ser um fruto carnoso da minha imaginação, e além.
 
Esse ano o evento foi repaginado do ponto de vista social, étnico e geográfico. Havia uma gama de autores e intelectuais racialmente múltipla, também o público apresentou esse caráter, garantindo a beleza da diversidade social na paisagem, fortalecendo-me no momento em que eu mesma, como uma escritora de origem amazônica, fui expor meu trabalho e minhas concepções sobre o fazer literário na Casa de Cultura de Paraty. Junto a mim estavam, também como escritores “em lançamento”, o Evanilton Gonçalves e o Geovani Martins. E sobretudo é deles que eu quero falar aqui. De nós.
 
Evanilton é autor nascido na Bahia, em Salvador, e acabou de lançar um livro chamado “Pensamentos Supérfluos: Coisas que Desaprendi com o Mundo”, pelo selo ParaLeLo13S. O Geovani é de Bangu e mora na Rocinha, no Rio, e concluiu agora a escritura de seu primeiro livro ainda sem editora. Os três, de imediato, já nos gostamos e cumprimos nossa jornada em clima de companheirismo e cumplicidade. Por causa desse encontro e da mediação justa e cuidadosa do cronista e roteirista Antonio Prata o que poderia ter sido uma mesa cheia de chavões sobre nossa condição social, de gênero, de classe, de raça, se tornou uma discussão plena sobre o principal assunto que nos une e enleia – nós, mulheres, pretos, pobres, periféricos: a literatura.
 
E é com amor e fé no ofício literário, o meu ofício, que me faço regressar à morada – em São Paulo, mas também nas cabanas internas – nutrida por acontecimentos pungentes e modificantes. O encontro com Geovani e Evanilton, junto aos acolhedores comentários sobre meu trabalho feitos por Ana Maria Gonçalves, grande escritora brasileira que produziu uma das mais notáveis obras da última década, “Um Defeito de Cor”, foram as coisas mais bonitas que vivi nos labirintos pedregosos e históricos de Paraty.
 
Perceber-me ali sendo eu mesma, caminhando, agora mais distante de onde tudo começou em minha trajetória como escritora foi absurdo e fantástico.
 
Perceber-me ali, representando minha região foi grandioso e ao mesmo tempo doído, por causa da solidão que nós autores amazônicos vivemos no sudeste.
 
Perceber-me ali, evocando minha mãe, meus ancestrais, meus guias, foi um alimento vital para os desejos de um futuro produtivo, cheio de escrita apaixonada, arte e ação no mundo.
 
Além disso, perceber finalmente meus pares espalhados pelo mapa brasileiro e nossa sede em comum pela palavra que se dá feito um armorial, capaz de transformar imaginários, corpos e a própria sociedade, parece-me revelar o verdadeiro, secreto e metafísico propósito mobilizado pelo acaso da junção de três escritores tão diferentes e tão parecidos. Isso dava um conto – não dava, não?
***
O Liberal Jornal – 2.8.2017

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