Três Tigres Tristes

Edvard-Munch-Melankoli-1894-96.-Foto-Werner-Zelin

I.

Um dos últimos ensaios que pude ler, e ao qual retorno sempre que necessário, chama-se “Saturno nos Trópicos” do Moacyr Scliar. Escolhi-o em um sebo depois de descobrir, lendo sua orelha, que se tratava de uma série de capítulos/reflexões sobre a chegada da melancolia – e sua semântica europeia – no Brasil. Na capa há um homem negro escorado em um banco de mármore, com a cabeça baixa avolumada por uma expressão grave. A correlação de elementos me parece justa, a baixa temperatura do mármore iluminado pelo sol de nosso país revela a contradição entre o gélido e o cálido da tristeza brasiliana. Tenho me dedicado a esse assunto.

Na Amazônia, apesar do discurso turístico que nos vende feito macacos de auditório para o restante do Brasil, também podemos ser muito neurastênicos. Essa visão do nortista alegre e caloroso me parece uma tentativa de taxação cultural para nos adequar à conduta teórica do sujeito cordial. Em nosso estado como em qualquer outro as pessoas são diversas do ponto de vista das relações e das construções subjetivas.  

A Susan Sontag já havia me apresentado os significados de uma visão saturnina a iluminar o mundo quando escreveu “Sob o Signo de Saturno” a respeito das itinerâncias de Walter Benjamin pelo pensamento especulativo e pela cidade. A melancolia de Benjamin era física e filosófica, isso me aproximou dele, tomei-o por professor nessa aventura que são as dimensões políticas, poéticas e pedagógicas da sociedade sob a lente dos tristes. Também sou saturnina, nascida a seis de fevereiro de mil novecentos e oitenta e sete, portanto, aquariana e macambúzia.

Vinícius de Moraes,  libriano do mesmo dia que meu pai, certa vez em Montevidéu escreveu: “É claro que a vida é boa /E a alegria, a única indizível emoção /É claro que te acho linda /Em ti bendigo o amor das coisas simples /É claro que te amo /E tenho tudo para ser feliz /Mas acontece que eu sou triste…”. Também cantou que “o samba é a tristeza que balança”, revelando a dor contida em uma das manifestações mais alegres da cultura negra.

O blues segue por essa estética nos convidando a uma travessia pelo improviso e pelo acidente. Billie Holiday é um dos timbres mais melancólicos da música norte-americana, alguns de seus biógrafos afirmam que os aspectos sombrios de sua vida envolvendo álcool, drogas e a depressão foram se corporificando em uma técnica vocal de lamento, marcada até mesmo nos temas mais acelerados e “festivos”. Em Billie também pulsava a dor de uma ancestralidade enodoada pela dominação.

Comecei a me apegar a essas pequenas coincidências de meus pensadores e artistas prediletos depois de passar por uma fase desesperada de recusas achando que as coisas da vida não mantinham conexão e por causa disso seriam arquitetadas sobre grandes blocos e estruturas de vazio. Ali, no fundo do poço, onde tudo é sombrio mas a água é fresca, tracei paralelos e atribuí sentidos particulares ao acaso. Gertrude Stein também nasceu regida por aquário, Bertolt Brecht, Maria Lúcia Medeiros, minha mãe, Tom Jobim, Rosa Franca, Bob Marley… Evidentemente, como qualquer melancólico, fujo das regras esquemáticas criadas por mim mesma quando me percebo encurralada, de modo que Chimbinha e o pastor Edir Macedo, também aquarianos, são classificados como impostores em meus cadernos analíticos.

II.

O termo “oniska” entre os Marubo, grupo indígena localizado no sudoeste do Amazonas, pode ser traduzido por “nostalgia” e “melancolia” – li isso em um livro do etnógrafo Pedro Cesarino também intitulado “Oniska”. Ao olhar para essas possibilidades de tradução eu me remeto a experiências particulares que tive a partir desses dois sentimentos agudos, ou estados de alma,  emaranhados um no outro como uma teia complexa, cheia e invisível onde não existe ponto de início ou de desfecho.

Eu vivi uma infância relativamente positiva nos sentidos do afeto, da saúde corporal e da educação, mas desde que me entendo por gente sinto uma espécie de esgotamento ou terror secular que sempre me pesaram as pernas e os braços fazendo com que atividades simples cotidianas fossem repletas de obstáculos abstratos constituindo um grande desafio para o corpo e o espírito.

No filme “Melancholia” lançado em 2011, do insuportável Lars Von Trier, a imagem da protagonista fugindo para nenhum lugar, em câmera lenta, impedida por raízes imensas e elásticas que aos poucos se enrolam em seus passos  é uma metáfora tocante a dizer muito sobre a dificuldade que o melancólico tem para agir ou ser socialmente produtivo.

O russo Andrei Tarkóvsky, por sua vez, dirigiu “Nostalghia” nos anos 80, uma película perturbadora à qual assisti aos 16 anos no Cine Líbero Luxardo, no período em que andava com a turma do cinema – uns amigos mais velhos de minha irmã que me adotaram como mascote. Lembro-me da antológica cena em que a personagem Gortchakov atravessa uma piscina com uma vela acesa na mão para cumprir uma promessa. O seu empenho para com a realização daquele ato simbólico é pungente, como se cada mínimo movimento envolvido na ação fosse decreto de um caminho sem volta, a própria tessitura da vida em toda a sua recusa à fixidez e durabilidade. Com frequência me percebo existindo sob os princípios desse sentimento de lenta travessia e escolha rigorosa, exaustiva, dos signos que me representarão porque eu, por mim mesma, não sou capaz de significar. Escrever um texto de três mil e trezentos toques quer dizer reler cada palavra três mil e trezentas vezes. Sinto vertigens irreais por causa de um verbo mal escolhido ou pelo uso incontornável de um clichê, isso do ponto de vista da escrita – na fala é pior ainda, um controle terrível, doentio.

É nessa ladeira que começam a rolar os pensamentos invasivos, invertebrados, que destroem a autoestima e produzem pânico. Se minha ação nesse mundo, onde só tem valor o que há de urgente, demorará milênios para se concretizar devido à lentidão e apego ao passado, então eu mesma não estarei aqui quando ela se consolidar, eu mesma já terei virado uma lembrança que passou e ninguém viu. É como se o futuro não fosse possível, só a linguagem.

Quando Gortchakov consegue finalmente completar a travessia, a piscina ou  a vela já não interessam, nem ele mesmo. Pelo menos não para a demasiada objetividade do progresso e das atitudes cujas grandezas se medem pelo dinheiro, pela moral ou pelo poder. O passado é o único lugar seguro, a gruta das verdades épicas, refúgio temporal.

Tenho saudades desses passeios com a turma do cinema, foi uma fase que alimentou posteriores descobertas vitais. Sinto falta. Em Belém também temos nossos invernos russos. E os girassóis.    

III.

Dizem os profetas que pessoas com problemas de ordem respiratória são afetadas fisicamente por seus fundos estruturais psíquicos ou cármicos da tristeza, mas o único asmático famoso do qual cheguei a ouvir falar foi Che Guevara que, segundo relatos, tinha um senso de humor afiado, nada miserável ou niilista. Guevara fez a guerrilha por entre sessões de falta de ar, charutos e gargalhadas. Aprecio essa espécie de gente que carrega as dificuldades nos bolsos do bom humor, e me identifico sazonalmente com esse comportamento que para os melancólicos não é nada aleatório e sim parte de uma repetição cíclica de altos e baixos emocionais.

A bronquite asmática sempre tratei com métodos naturais e nadando. Eu adoro nadar. Minha mãe nunca aprendeu e uma vez, quando eu tinha oito anos de idade, ferina desde sempre, gritei isso no meio de uma bronca para machucá-la, defendendo-me ofensivamente daquilo que minha arrogância julgava ser uma injustiça. Hoje entrar na água pela manhã bem cedo  é um exercício aparentemente sem propósito simbólico, mas por dentro justifica-se como uma atitude de conciliação entre a filha e a matriarca por sob papéis invertidos, é a minha vez de ensiná-la a bater os braços e as pernas através de um mesmo corpo, o meu – que é um pouco ela -, para salvarmo-nos as duas do inevitável afogamento.

Não sei ainda por que diabos decidi tocar flauta transversal e logo depois clarinete se tinha conhecimento da minha falta de cacife pulmonar. Mas aconteceu. A flauta me roubaram há cinco anos, depois disso comprei um clarinete de segunda mão por gostar do som que o instrumento emite, até hoje guardo uma memória musical dos samba-canções e chorinhos interpretados pelo Paulo Moura ecoando nos labirintos de nosso pequeno apartamento na Conselheiro Furtado. A música fazia o espaço parecer muito maior do que era, e se espraiava para além de nossos limites físicos, ultrapassando as janelas gradeadas, vitoriosa a perfurar os blocos de umidade do ar antes da chuva, como um pássaro todo livre e todo meu.

O clarinete que jamais batizei, contrariando a tradição dos músicos (talvez por não me considerar um deles), é companheiro leal. Às vezes conseguimos nos entender de tal forma que me perco em saber se sou eu que o estou tocando ou se é ele que me mobiliza a vibrar, ressoar a partir das áridas colunas de oxigênio represadas em meu peito feito um gato na gaiola.

Em dias furiosamente dolorosos e estranhos é sempre bom lembrar que a arte é água afinal. Hidrata, lava, ensina os mortos a nadar. A arte pode curar um coração intranquilo, além de nos devolver aquele humor sagrado que sustenta revoluções.

Pois em uma tarde dessas eu me acabei de gargalhar na cozinha junto com a Aninha e a Maria. Falávamos de um lugar em São Paulo onde vendem sanduíches gourmet e a Aninha perguntou qual seria o ingrediente secreto desta iguaria de haute cuisine. Em tom grave, tomada por uma maturidade surpreendente e irrecusável, respondi solene: cocô.

Gosto quando besteiras rompem o  triste e tenebroso inverno, vai que o mundo talvez não seja todo esse precipício de dor.

Gosto do deslize sobre a casca de banana que nos faz rir depois do tombo.

Não estou totalmente convencida, mas não descarto que a vida apesar de tudo possa ser apenas um arranhão,  depois que casar sara.

***   

 

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