Cão

Cão

O café afogado no açúcar do boteco junto com o cigarrinho comprado em avulso, na Brigadeiro Luís Antonio, são coisas de fazer lembrar Luiz Octávio Barata que era, todo ele, fumaça e excitação.

Sobretudo quando dessas tardes de outono paulistano em que o calor e o frio justapostos costuram sensações controversas no corpo. O sol na cabeça e as rajadas gélidas de vento lambendo as pernas e os braços nos deixam discretamente confusos, estado esse que, confesso, aproveito sem pressa.

Toda vez que tomo meu café e fumo meu cigarro no boteco da Brigadeiro, eu me despeço, novamente e uma vez mais, de Luiz Octávio.

Quase posso enxergar sua feição amorosa por sob os óculos colados com durex e os imensos bigodes amareladamente grisalhos. Sua voz rouca é inaudível por causa da buzina dos carros, mas em algum lugar de meus ouvidos embotados posso senti-la.

Tínhamos por hábito fazer longas caminhadas pelos labirintos do centro e em conversas desregradas sobre filosofia, literatura, traição, passado, muito passado, um passado exaustivo que não cabia em meus 18 anos, mas transbordava na velhice dele. O Luiz tinha 66 quando nos conhecemos e nosso curto encontro se tramou justo por entre os ruídos de dois tempos desproporcionais, assimétricos e tão sedutores.

Já ouvi de uma mulher que sabia interpretar signos que sou dessas criaturas de alma antiga, razão pela qual me identifico com pessoas mais vividas. Elas me remetem a recordações de um lugar por onde passei e do qual fui cuspida para a juventude, exilada, porque não soube me comportar.

 

O Luiz Octávio dizia o seguinte: tens olhos profundos de cão que é, de todos os bichos do mundo, o mais melancólico. Os cães já nascem idosos, é desse jeito que o teu olhar se manifesta. Isso te envelhece. Isso e as olheiras. As olheiras se resolvem com cremes e noites de sono. Agora o olhar, minha amiga, não tem santo que dê jeito.  

E derramava-se naquela risada também muito rouca e muito profunda.

Eu perambulava sem rumo em suas histórias, dunas arqueológicas, onde havia nossa Belém, as ruas, os teatros, o repetitivo episódio da briga com o maestro Waldemar Henrique, os amantes sem nome, o amor infindo por Andrezito.

Luiz era um homem que a todo instante tentava ser livre e nessa ciranda eu me embrenhava, me metia apaixonada, me arrebentava de curiosidade e desprezo por não poder tomar parte nela.

Ao terminar o café e o cigarro no boteco, avanço pela Brigadeiro para dobrar na Treze de Maio. Do outro lado da rua um skinhead me fita e eu temo porque agora que estou com os cabelos muito curtos, pareço um menino com peitos e isso é, aparentemente, uma grande afronta à virilidade de cristal desse tipo de gente.

Acelero o passo, observo os antiquários e seus artigos de colecionismo, vejo as crianças vestidas para as festas de São João, sinto o cheiro das trattorias, as pessoas têm fome nas esquinas. É nesse despedir-se sem fim do Luiz Octávio exatamente onde me recomeço.

Tudo isso o traz para perto de mim, mas não é verdade.

A verdade é que nos vimos pela última vez nesse mesmo endereço, nesse mesmo mês de junho, há onze anos. Pouco tempo depois ele teve um ataque do coração e partiu. Morreu aos 67 anos, mas eu gosto de dizer que foi aos 69 porque, segundo ele mesmo, novamente e uma vez mais, 69 é um número maravilhoso, minha amiga.     

***

O Liberal Jornal – 28.06.2017

Fotografia: Pinterest

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