O Machado de Xangô

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Eu gostava do tempo em que ficávamos à beira do rio discutindo a diferença entre filósofos e estetas, poetas e salafrários, gênios e pessoas de verdade. Era certamente um dos meus programas preferidos naquelas tardes em que ainda éramos amigos.

Descobrimos que sujeitos geniais são orgulhosos e não servem para coisa alguma porque já superaram as questões terrenas e não precisam provar nada pra ninguém. Eles não têm necessidade de dar a ver o que produzem porque se arrogam o direito sobre a perfeição e estão em uma posição imaculada de superioridade, montados sobre a vã humanidade que precisa de muito estudo e muita dedicação para compreender certas lógicas que para esses alguns surgem como aptidão.

Mas aptidão é diferente de dom. A poética do dom tem, há séculos nas sociedades modernas, pertencido a outra natureza. O compositor Wilson das Neves bem falou em uma daquelas letras que poderiam ter sido o meu nome de batismo:

 “O samba é meu dom/ aprendi bater samba ao compasso do meu coração”

A síntese é clara: o dom permeia o coração mas é necessário colocar-se em posição de aprendizado para que o ritmo se manifeste materialmente através da dança das mãos sobre o couro do pandeiro – para que o couro do pandeiro passe a vibrar em toda a sua superfície, para que a vibração se estenda ao movimento circular das platinelas que se atracam umas nas outras produzindo, sincopadamente, um específico som molhado (de longe captável e reconhecível pela verdadeira nata da boemia).

Mais adiante o das Neves arremata: “O samba é meu dom/ É no samba que eu vivo/ Do samba é que eu ganho o meu pão/ E é no samba que eu quero morrer de baquetas na mão” – nesse momento da canção, é preciso dizer, a prece se realiza completamente em ritmo e som. Os agudos evocados por entre as fissuras nas cordas vocais junto aos nós da garganta geram apoteose sem igual na audiência que poderá até flutuar para montes olímpicos se a cantora for boa de fé.

Podemos constatar, consequentemente, que a genialidade humana existe mas nunca soube dizer a que veio. Por outro lado, aqueles que se dedicam às imersões profundas d’alguma prática ou tema são tão dignos de respeito e admiração quanto qualquer um que tenha nascido lutando boxe, no escuro, com uma mão nas costas. Eu gostaria de falar mais sobre boxe, mas só sei falar de samba.

Confesso que como leitora tenho minhas preferências e muitas vezes atribuo a certos autores uma inteligência super humana muito mais atrelada às visões apaixonadas que preservo em mim do que à observação crítica de sua produção. Mas fico imensamente feliz quando leio alguns de meus preferidos e percebo em seus textos as vacilações e crises fundamentais de todo processo criativo.

Outro dia voltei ao Machado de Assis, peguei o conto “A Igreja do Diabo” para dar uma respirada nas ideias. Percebi depois de algumas releituras ter desgostado do final. Fiquei algum tempo refletindo se aquilo se tratava de soberba de minha parte mas decidi assumir a confusão, tratei o Machado sem firulas, da maneira como faço com meus amigos: pisaste na bola, meu irmão, e eu queria entender por quê.

E da maneira como alguns dos meus amigos às vezes fazem comigo, Machado preferiu não me responder pois aquele assunto poderia lhe abrir as profundas feridas que ele pensava já terem cicatrizado.

***

O Liberal Jornal – 2016

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