Adeus Lucíola Abstrata

Henri-Cartier-Bresson-selfi

Quando  coloco a verdadeira Lucíola, a Lucíola de carne e osso, parida por sua mãe, egressa de cidadezinha do interior de São Paulo, ao lado da abstrata Lucíola, aquela que criei em meus desvarios, um relicário de pernas e cabelos, percebo ser mais interessante chorar pela segunda do que pela primeira.

Tirei essa noite para livrar-me da abstrata Lucíola que amei intensamente durante uma semana e meia.

Temos uma semana e meia de mulher, portanto. Uma semana e meia para concluir a faxina. Uma semana e meia preenchida por todas as incivilidades trágicas que fizeram do meu coração um homem cego e ingênuo.

Primeiro aniquilo o encontro de mãos, quando trocamos sutis carícias em uma viagem de ônibus. Desfaço-me das mãos, todas. Através de uma máquina de triturar os impropérios do tato – como essas que esmigalham papéis de escritório. As minhas mãos e as dela. Escreverei com os pés daqui para adiante. Adiante. Adianto-me para o dia em que não me doerá essa flecha pontuda e salgada espezinhando minhas carnes – eu não sentirei mais dor, eu não serei mais eu, serei outra, serei velha, e terei me esquecido até do nome dela. Lucíola. Mesmo o seu codinome será um endereço abandonado.

Deito fora as trocas de olhares fortuitos, segredáveis, em meio aos colegas de trabalho. Pinto as memórias, já não se pode destacar mais nada das imagens, somos apenas azul escuro e é tudo. O que resta é essa lambuza cor de mar denso, não se sabe mais quem é quem e quem está olhando para quem. Foram embora os olhares fortuitos em meio ao azul escuro. Lucíola é de um azul escuro abissal. A Lucíola da abstração… A Lucíola real tem a pele branca e se porta como uma menina, isso é, não tem nada de azul escuro.

Livro-me também das palavras doces trocadas em cartas curtas tecnologicamente portáteis. As confissões amorosas, o desejo pregresso de estar junto.

Não sobra nada do meu relicário de pernas e cabelos. Não sobram motivos para chorar. Mais uma vez arrumo e limpo minhas coisinhas de modo a deixar o espírito em ordem.

Da Lucíola verdadeira, aquela que tem vaidosa adoração em ser chamada de princesa pelos meninos do bairro, aquela que sorri finos sorrisos de boneca para garantir favores, aquela que age pelas arestas da vida escondendo-se na retaguarda da guerra, a força do tempo há de cuidar.  

Da Lucíola, abstração minha, encarrego-me. Sem ânimo eu te escrevo essa última bagunça. Da tua partida cuido eu, pelas forças abrasivas de um gole, empuxo, de cachaça boa – da mineira. 

***
2012
Fotografia: Henri Cartier-Bresson 

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