Cuba e as Imagens

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O outro resolveu viajar pra Cuba. Fiquei sozinha em casa. Por um telefone ilícito ele conseguiu me enviar uma mensagem: es todo verdad. Conversando com o meu pai ouvi que ele deveria ter ido para  a Rússia. Tentei explicar ao velho umas duzentas vezes que o Bruno não viajou para Cuba para atuar na militância de esquerda, ele foi fazer uma peça de teatro em um festival de Teatro de Bonecos. O meu pai só ouviu a parte do de Bonecos e perguntou por que o Bruno havia se metido em uma peça de bonecos e eu disse: para ganhar dinheiro, pai.

Em Cuba? O pai perguntou. Não soube o que responder. Respeito Cuba. E também acho racista o sistema político de lá. Também acho digno ganharmos dinheiro com nosso trabalho no teatro.

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Andando pela tarde fria e ensolarada de domingo eu penso que talvez ele esteja vendo alguma paisagem inenarrável. Espero que volte logo para poder me contar tudo. Fico irritada quando penso que ele não levou nenhuma máquina fotográfica.  

Depois boto um Jards Macalé no toca-discos.

O toca-discos é antigo e o motor não está lá muito bom, tudo fica ralentado. Quando fomos experimentá-lo pela primeira vez notamos que a Elis fica com a voz um semitom mais grave – o que distorce seus falsos brilhantes e afins.

O Miles Davis nem se fala, a cornetinha ficou mole, quase não se reconhecem suas frases psicodélicas.

Curtimos na sala mesmo assim, com os corpos jogados sobre o tapete azul. Feito dois moleques. Feito os dois moleques que eu era quando criança. Quando era apenas uma, solitária, sobre o chão do apartamento do Monsenhor Azevedo, vizinho ao Presídio São José. Naquele tempo ainda era presídio sim. Uma vez, em um final de semana, minha mãe até pediu para que nosso pai não nos levasse de volta para casa porque estava acontecendo uma gravíssima rebelião. Eu tinha uns dez anos, sequer imaginava o que poderia ser uma gravíssima rebelião. Fui aprender só quando vi nas notícias da televisão o corpo do famoso Ninja pendurado por uns lençóis amarrados.LB_0316 004

Durante a notícia, minha mãe pôs cada uma das mãos sobre nossos olhos, os meus e os da minha irmã Luana, mas conseguimos ver através dos espaços por entre os dedos aquelas fortíssimas imagens que provavelmente nos marcariam para sempre. Como marcaram outras tantas imagens de violência em nosso estado. Nossos corações, creio que pela primeira vez, puseram os pés no chão.

Vi agora uma fotografia da minha irmã com a filhinha, foi publicada em uma página de movimentos sociais. A pequena Rosa está sobre os ombros de um rapaz amigo de minha irmã e tenta tocar com as mãozinhas o rosto da mãe, a mãe por sua vez se aproxima com a cabeça. Em seu semblante há uma expressão de leveza e plenitude que me soa como a sensação da verdade. A conexão entre as duas é palpável. Elas não se vêem. Luana está com os olhos fechados, aguardando o toque da filha na testa, esperando no invisível o ato da pequena que vem elucidar a todos nós, espectadores da fotografia, a relação amorosa travada entre as duas em seu cotidiano.luiz4

Eu tenho na memória uma noite em que fomos à exposição do fotógrafo Luiz Braga aqui em São Paulo. Ele era amigo de nossa mãe (na sala da casa de minha irmã inclusive reside uma fotografia que ele nos deu depois do falecimento dela – uma imagem cheia de coloridos, na qual ela está no Centro ITA, diante do trem fantasma com um amigo, enluarada). Pois bem, na ocasião Luana ainda estava grávida, já com um barrigão e o Luiz ficou surpreso. Luana disse assim: as mulheres de nossa família sempre vêm em trio, não se assuste.Abertura SP-0170

A Rosinha é uma das mulheres de nossa família. E nossa família não tem nada a ver com hierarquia sanguínea. Somos todas irmãs. Todas.

Quando Luana estava escolhendo o nome da Rosa, um dia sentou comigo e falou: pensei em Rosa. É simples, fácil de aprender, fácil de escrever, e ela vai saber rápido falar de si mesma. Além disso, quero homenagear a Rosa Luxemburgo.

Eu concordei. Achei a homenagem bonita e cheia de esperanças no mundo. Rosinha pra mim é essa menina que vê as coisas como novidade e não se cansa do porvir. Ela me alimenta. Quando o Bruno chegar de Cuba, vou falar isso pra ele.

***

O Liberal Jornal – 2016

Fotografias: Luiz Braga

 

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