Arte, Política e Revolução

Salãodo livro

Por causa do lançamento de meu livro em São Paulo fui convidada para participar de uma mesa de debates do III Salão do Livro Político, um evento destinado à integração e troca entre o público e editoras independentes. O tema da discussão foi “Arte, Política e Revolução”, participaram comigo da mesa a Luiza Romão, poeta paulista, mediadora do debate, o dramaturgo Alexandre Dal Farra, o professor Peter Pál Pelbart e o jornalista também paraense Palmério Dória com quem tive a oportunidade de conversar um pouco sobre os graves acontecimentos que assolam nosso estado.

Diante das mazelas políticas vividas no país, historicamente persistentes ainda que alguns momentos de avanço econômico e social tenham sido respiros para o povo, é impossível discutir arte, política e revolução sem, antes de tudo, refletir sobre o significado desses conceitos no Brasil e na América Latina.

Como comentado por Palmério, não existe na história do país uma revolução material, isso é, todo processo politicamente modificante no Brasil aderiu à certa altura ao pacto social de manutenção da desigualdade. Vale mencionar, por exemplo, a ausência de diversidade no TUCArena, teatro da PUC, no bairro das Perdizes, onde foi realizado o debate. Esse espaço, acadêmico por excelência, ainda revela uma paisagem de síntese elitista onde há muito poucos negros atuando como pesquisadores, estudantes e/ou professores. Esse é um dos índices da estabilizada condição do racismo que, atrelado à pobreza, é uma das maiores doenças da qual nós brasileiros ainda não conseguimos nos curar.

Em sendo assim, quais são os processos artísticos de fato politicamente transformadores na história brasileira? Quais ações se demonstraram materialmente inclusivas no que diz respeito aos marcadores da diferença de raça, classe, etnia, gênero etc.?

As contradições se anunciam até mesmo nos grupos de teatro de esquerda  que se aproximaram positivamente dessas questões. O que dizer do espetáculo dirigido por Augusto Boal “Arena Conta Zumbi”, montado na década de 60, do qual só havia dois negros (a camareira e o baterista) participando? Ou da primeira encenação de “Gota D’água”, na década de 70, de autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes, na qual o perfil de Bibi Ferreira, intérprete da protagonista Joana, não refletia em nada, do ponto de vista da afirmativa “brasilidade” da peça, a mulher periférica?

Para além do julgamento moral e individualizante, o que esses episódios revelam historicamente?

Por que em pleno século XXI, passadas tantas décadas, ainda há esse abismo entre o produto estético e a participação política das “minorias” em sua elaboração? Por que no ano de 2017 ainda há obras que “falam sobre” o racismo sem que haja negros no elenco? Por que aos pobres são destinados os gestos repetitivos da cultura de massa e nenhum suporte para o aprendizado das artes no ensino formal? Por que os intelectuais brasileiros são todos homens brancos filhos de nossa aristocracia tardia? Por que os escritores do norte e nordeste do país são considerados “regionalistas”?

A meu ver, essas são algumas das questões que o artista deve encarar no ato da criação. Em um país em que toda mínima garantia de direitos se tornou um privilégio, somente uma realidade de inclusão social estética, política e humana pode ser revolucionária.  

***

O Liberal Jornal – 14.06.2017

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