Redenção

A comida da merenda dos meninos ficou repousando na panela sobre o fogão desligado e então se passaram muitas horas e, de repente, muitos dias. O cheiro pútrido dos ingredientes infestou a cozinha inteira e principiou a resvalar-se para os outros dois cômodos existentes na casa simples de tijolinho aparente, às bordas de uma vicinal da avenida Quatro. O cachorro ficara sob os cuidados dos vizinhos.

As portas e janelas fechadas interrompiam aquele despejar-se do sol que iluminava os espaços qual um toque divino anunciando  a prosperidade naqueles reinos áridos onde muito trabalho era pouco ganho e as pequenas façanhas se celebravam a título de mérito.

Havia nesgas de luz a escapar por entre as frestas da porta e esgueirando-se nos furos das paredes já gastas pelo tempo dos vinte anos, desde quando o esposo de Marina  construíra aquela morada para ela e os filhos. Ele cessou de vê-los crescer depois de tomar três tiros de jagunço no abdômen, três tiros que lhe arrancaram da vida e o inscreveram nessa outra ordem de existência da qual ninguém volta para contar, mas os meninos cresceram bonito, já eram rapagões, trabalhavam também muito duramente no campo, estavam nas lutas pela justiça, acreditavam em muitas coisas que não podiam ver, apenas supor, apenas desejar.

Cada um deles já tinha esposa e filhos, o tempo se desdobrara e a família se expandira à revelia do prenunciado pelos capitães do mato a carregar penosamente sobre as próprias costas lanhadas os fantasmas de seus coronéis.

No passar vagaroso das épocas as lamparinas foram pouco a pouco substituídas pela luz elétrica e assim tornou-se comum um ou outro caso de menino que empinando papagaio levou um choque e zás.  Por outro lado, surgiram mais e mais cadeiras nas entradas das casas, criando especiais condições para um bom palavrório no conforto da noite morna.  

O luto de Marina também no correr dos anos transmutou-se em boas lembranças do marido. Ela, depois de curar a dor quase que por inteiro, passou a tocar o barco com uma força que vem de onde não se explica.

Mas agora, nesse momento, sentia-se fraca.

Os ânimos escorriam do centro do corpo para o chão, para debaixo do chão, para o verso dantesco do chão. Deixara há dias a  casa toda trancada, abafada, para a qual não voltaria tão cedo. Não até resolver o problema dos corpos que só chegaram depois de dois dias da data em que se deu a matança naquela maldita fazenda.   

Uns homens tiraram os sacos pretos dos caminhões e foram chamando os familiares dos mortos para que pudessem fazer o reconhecimento e preparar os funerais. Marina achou logo os dois filhos no meio dos outros oito cadáveres. Reconheceu pelas vestes e pelo coração porque os rostos estavam deformados.

Aquele dia

tremendo e oco

se decompunha também

muito rapidamente

sob o calor de quase quarenta graus,

a tarde parecia se desfazer em uma grande massa informe cheia de bolor e bactérias que se multiplicavam em progressão geométrica, de cima a baixo e transversalmente.

Marina ficou com a vista turva, mas não fraquejou. Jamais. Sabia que apesar do aroma putrefato e santo da morte, a carne de todos os homens é digna e a ela  devem se dobrar os canhões e os sinos e o espírito.

Toda carne é sagrada.

Até mesmo aquela estragada, repousando na panela,

meu deus, a merenda dos meninos.

***

O Liberal Jornal – 07.06.2017

  

 

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