Boca de Ferro

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O Ícaro me ensinou a desvendar Belém.

Eu, uma menina criada num apartamento, vivia uma cidade diferente daquela que ele conhecia como a própria palma da mão há muitos anos, porque já andava sozinho por aí visitando bairros e regiões dos quais minha parca experiência urbana me impedia de suspeitar.

Nós nos tornamos amigos ainda no final da infância e, desde então, passamos a caminhar juntos por todos os lugares. Às vezes fazíamos a brincadeira de pegar ônibus sem saber seus itinerários, sempre perigando cair perdidos em algum setor desguiado. Mas Ícaro não deixava porque tinha boas intuições sobre tudo, era verdadeiro peregrino.

Ao final das viagens, eu voltava para o centro e o Ícaro para o conjunto onde vivia,  o famoso Maguari, na periferia. Ele levava uma hora e meia mais ou menos da sua casa para o colégio, ou para a escola de teatro, ou  para a casa dos amigos. Às vezes fazia alguns percursos a pé quando faltava o dinheiro.

Eu não tinha a dimensão do que significavam essas dificuldades porque para mim as distâncias eram moderadas e até agradáveis; costumava passar por ruas estreitas e asfaltadas cheias de árvores, sem muitos carros, sem muito calor, sem muita violência, mas o Ícaro encarava todos os dias situações apertadas que ele sempre narrava, invariavelmente,  com muito entusiasmo. Mesmo quando eram episódios tristes, meu amigo tirava deles alguma alegria para que não ficássemos melancólicos.

Partimos os dois de Belém, eu alguns anos antes. Ele hoje trabalha em uma companhia de dança contemporânea no Rio de Janeiro. Outro dia uma foto sua até estampou um cartaz de quase dois metros de altura em Santiago de Compostela.  

Fui com saudade e amor vê-lo apresentar um solo, o Boca de Ferro, no SESC Belezinho, um dos espaços culturais mais disputados de São Paulo. Esse trabalho estreou na Espanha e já rodou por Portugal e Croácia. Trata-se de uma desconstrução do corpo baseada na referência de nossas aparelhagens, as Bocas de Ferro, e do pop nortista.

Para mim é um exercício doloroso ver o Ícaro em prática tão extenuante, mas eu não poderia negar que o espetáculo de fato cria uma atmosfera perturbadora, escatológica, violenta que nos atravessa como espectadores e corporalidades ali presentes. Não gosto de passar por experiências assim, elas ferem muitas coisas nas quais acredito, não por isso eu seria injusta: a obra é potente e isso se dá por ser  Ícaro Gaya o seu corpo de passagem.  Através dele se manifesta a expressão do histórico e vivência desse homem amazônico periférico enleado pela trilha sonora do brega, do  tecnobrega , do melody, do eletro.

Esse amazônida que na tentativa de sobrevivência é assassinado por fazendeiros. Esse amazônida que é perseguido por carros prateados na calada da noite. Esse amazônida que somos nós, as mulheres, torturadas, executadas, estupradas.

Diante da ausência da biografia do co-criador da obra Boca de Ferro no programa do SESC Belenzinho (equívoco institucional? Falta de cuidado? Silenciamento?), eu decidi contar aqui nesse espaço o percurso do artista Ícaro Gaya. Como veem,  foi longo… Tem sido longo. Uma hora e meia mais ou menos dentro de um ônibus esculhambado,  no calor, com os pés cansados, sem dinheiro e, sobretudo, com o peito cheio de vida e de arte – não necessariamente nessa ordem.

***

O Liberal Jornal – 31.05.2017

 

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