Golpismo Literário

Alguns textos de Julio Cortázar, escritor e crítico argentino, são para mim companheiros de aprendizado. Essa semana reli o ensaio nomeado “Para uma Poética”, do livro de crítica literária “Valise de Cronópio”, publicado originalmente em 1974.

Ele escreve de modo tão livre a respeito de suas percepções sobre a estrutura do conto e do efeito fantástico na prosa literária que para os leitores persiste a sensação de que, na realidade, estamos a travar uma conversa entre amigos, nós e o autor falecido em 1984, em um boteco qualquer da cidade, à beira de copos americanos preenchidos até a metade de café preto (um com, outro sem açúcar).

Uma das formulações mais bonitas desse ensaio é aquela em que Cortázar localiza o poeta entre o filósofo e o curandeiro, isso é, quem se propõe a poetizar exerce o papel de ponte entre a instituição filosófico-científica e a magia.  Esse alguém que produz discurso, seja nas artes literárias ou demais linguagens que sustentam o campo estético, existe como um corpo de passagem por onde transita e vibra o ato poético.

Estava com essas idéias quando tive a ocasião de me deparar com um exemplar do livro do presidente Michel Temer, “Anônima Identidade”, publicado em 2012 pela Topbooks. Nele estão reunidos poemas (que “flertam” com a forma do haikai) dentre os quais podemos friamente destacar, por exemplo:

“Se soubesse que a vida era assim/ Não teria vindo ao mundo”.

O poema intitulado “Radicalismo” professa:

“Não! Nunca mais”.

Por fim, mas não menos medíocre, em “Saber” o leitor pode testemunhar que:

“Eu não sabia. Eu juro que não sabia!”.

Em meio a tão bons escritores e narradores brasileiros, é no mínimo curioso que Michel Temer e seus editores não façam o movimento de notar que a escrita do presidente é forjada em operações previsíveis, simplórias e melodramáticas, relevantes talvez como exercício de redação de lógica privada – aquele material que devemos  guardar, passando o cadeado, dentro de gavetas e arquivos, pois nele está a tentativa e o erro. O pré-texto que na maioria das vezes não interessa ao grande público e sim ao autor como referência que estimula, sobretudo, a autocrítica.

Talvez eu nem tivesse de me valer de Cortázar para dar contraste ao material de Michel Temer tamanha a sua superficialidade, mas achei importante trazer um contraponto positivo a esse artigo para não estagnar na chave da reclamação tão típica daquela velha escola da crítica literária, teatral, cinematográfica.

Ao contrário de Michel Temer, Cortázar lavra a poesia com refinamento, é comprometido com a experimentação. Para ele não existe leitor ignorante; mesmo as frases mais complexas e misteriosas provocam assombro intelectual, ou seja, convidam-nos à reflexão. A comparação entre Temer e Cortázar é assimétrica e por isso injusta, mas eu não poderia falar do pior sem falar do melhor.

Se para Cortázar a palavra é ofício de fé, material de exploração e pesquisa, para Temer (e tantos outros) parece ser mais um brinquedinho ou novidade facilmente alcançável. O escritor de verdade sabe que com a escrita não se brinca e do leitor não se duvida. O que Michel Temer parece não entender é que para criar realidades transformadoras não adianta só dominar a mesóclise ou possuir uma faixa presidencial… Há de haver coragem, integridade e estatura.

***

O Liberal Jornal – 24.05.2017

 

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