Raio Infralingüístico

A quem interessar possa o desejo de me fazer um agrado, digo logo que não fique parado, abra os olhos e adentre cá esse sobrado, essa casa de areia, esse castelo de letargia, esse muro de teia. Esse berço sem fundo. Esse colapso nervoso às raias do silêncio matutino e profundo.

O coração, essa estaca fincada no peito, não sabe mais o que é dormir.

Mas quem sou eu para dele falar mal ou incendiar os seus cabelos?

O coração, engenho movido a óleo quente, não quer mais saber de trabalhar.

O coração, inquietude do corpo, pulou pra den’ do mundo. Porque o coração, pedra d‘água doce, não sabe respirar fora do poema.

Fora isso, encontro-me a salvo, purificada e sã. Uma moça que se arrisca, insiste no repique, pendura um badulaque e trafega na marquise à moda dos tuaregues.

Acostumo-me à tarefa de apagar teu nome de minha prosódia – isso é o mesmo que viver ao contrário, só que doente.

Participo de saraus onde leio coisinhas. Vou fazer meu livro. Tenho oito mil cadernos onde versei a vida toda sobre terremotos e a mãe Euá.

Para mim não há imagem mais contraditória do que a de uma ambulância que atropela alguém saudável no afã de salvar a vida que carrega por dentro.

Um tijolo que cai de um imponente edifício espelhado em construção sobre a cabeça de um passante não me parece forma tão rica. Digo isso não porque eu seja amante de ambulâncias, nem porque seja manca em virtude de um tijolo que me atingiu a perna aos seis anos de idade, mas por intuir que o ato de criar também possa se realizar pela tentativa de salvar uma vida em risco que nos habita as entranhas – vida essa que pode ser nossa ou não nossa. E nessa pretensa atividade heroica nos tornamos viaturas desgovernadas.

O complexo do tijolo que cai não gosto de debater. Todos os discursos e similitudes que essa imagem traz invariavelmente dizem respeito ao progresso e aos sussurros fantasmáticos da contemporaneidade, do instinto cosmopolita, do futuro que acampa, de forma autoritária, sobre o presente em detrimento de sua matéria humana – e isso eu não suporto. Aliás, não suporto o caráter visionário da medicina e da astronomia que preveem resultados milênios adiante em razão do prolongamento de nossa vida no globo e do acúmulo de conhecimentos dos quais é possível vangloriar-se socialmente. Confesso de minha parte que do amanhã só sei antever os cheiros e o nublado branco característico dos primeiros respiros do dia. 

Algumas discussões viraram apenas carcaças de ideias podres. Já não podem dar em nada. O tema da evolução é desse jeito. Nenhuma época supera a outra, nenhuma escola literária supera a outra, nenhuma beleza deveria ter o poder de silenciar outra beleza. Evolução é uma invenção leviana dos homens para tornar uns melhores ou mais capazes que outros.

Mas, para sua indiferente irritação, até os mortos têm voz.

Vou contar outro segredo: às vezes nas situações em que eu me dou conta de que gosto apaixonadamente de alguém ou então quando vejo uma mãe relatando como perdeu o filho, eu choro. Na parte de fora do meu corpo surge apenas uma lágrima, escassa e dura, porque sou uma mulher muito grave. No interior dessa lágrima, no entanto, está um corpinho manso que também é eu, contorcido, convulsionado e fraquejando de tanto prantear.

Por fim, um último segredo: não escrevo pra quem bate panela.

***

O Liberal Jornal – março de 2016

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