A Porta da Esperança

Os primeiros raios de sol, placidamente acomodados à superfície do horizonte na segunda-feira, eram prova cabal de que tínhamos sobrevivido aos terrores do domingo à noite.

Geralmente pedíamos pizza e eu e minha irmã acampávamos na cama de minha mãe, assistindo ao Fantástico.

Naquele despontar da década de 90, ainda se falava em paranormalidade como algo  absolutamente normal e passível de comprovação científica. Ficávamos extasiadas ao testemunhar as matérias sobre experiências de pós-morte, saltos na anteconsciência e  ocultismo. Aquelas notícias se congregavam ao clima quente e úmido de Belém onde, todos sabemos, também se escondem criaturas mágicas pela madrugada, atadas ao nosso imaginário amazônico tão bravamente explorado.

Minha mãe tinha, àquela época, pouco mais de 35 anos de idade e fazia com primor a mediação de nosso contato com medos e pequenos pavores que ao longo do tempo foram se tornando rasuras cada vez mais profundas e dolorosas.

Para mim, obviamente.

Nunca para minha irmã: ela, porque leonina, sempre foi e será mais valente do que eu.

Quando eu pensava coisas muito ruins, minha mãe conversava pacientemente, limpava minhas lágrimas e dizia algo que levo comigo para a vida toda:

Os pensamentos são pássaros. Nós não podemos fugir deles quando voam acima de nós, mas podemos evitar que façam ninhos sobre nossas cabeças.

Então foi assim: desde meus quatro ou cinco ou seis anos, duas ou três vezes por semana, eu espantava um monte de aves intrusivas que com insistência pousavam e jaziam em meus cabelos.   

Dos temores que me deixaram sem dormir nesse período, os reincidentes foram: medo de estar com o vírus da raiva por ter tocado em um filhotinho de gato que aparecera em minha escola; medo de um inseto de picada mortal que um primo muito cruel me disse que habitava a minha casa; medo de ficar sozinha no mundo; medo de minha irmã pisar em um prego enferrujado, medo de ficar cega (desde o dia em que olhei diretamente para um eclipse solar e passei o dia com ardência nos olhos).  

Nas altas noites de domingo, muitas vezes eu acordava angustiada e era acolhida por minha mãe. Púnhamos a televisão no SBT e assistíamos ao programa Porta da Esperança, do patrão Sílvio Santos, para passar o tempo e para que o sono uma vez mais tomasse meu corpo.

Certa vez, minha mãe se animou com um senhorzinho que pedira ao Sílvio uma sanfona. Disse-me que seu pai, o  vô Manoel, também gostava do instrumento. Ela, que era muito crítica e atenta para as ilusões da televisão, deixou-se levar pelo suspense do programa, torcendo para que surgisse pela porta da esperança a graça alcançada.

Houve que as cortinas se abriram e o Sílvio, muito debochadamente, lamentou não haver nada ali para o senhor. Eu nunca tinha visto isso acontecer no programa. Minha mãe desligou a tv esbravejando que aquilo não passava de mau-caratismo.

Ela me levou até o quarto onde eu e Luana dormíamos, curvou-se de modo que seus olhos ficassem na altura dos meus e disse baixinho para que minha irmã não acordasse: minha filha, é preciso ter coragem para enfrentar os pesadelos, mas também os sonhos.

E naquela madrugada eu dormi bonito. E naquela madrugada eu fiquei amiga de meus fantasmas. E naquela madrugada eu nunca mais tive medo. E há ainda madrugadas como aquela – só não sei onde.   

***

O Liberal Jornal – 17.05.2017

 

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